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Silas (parte 3)

Equipe Ludopédio

Paulo Silas do Prado Pereira foi um dos principais jogadores brasileiros entre as décadas de 1980 e 90, atuando em vários clubes: São Paulo, Sporting de Portugal, Sampdoria-ITA, Internacional (RS), Vasco da Gama e San Lorenzo-ARG. Fez parte da equipe conhecida como “Menudos do Morumbi”, comandada pelo treinador Cilinho. Silas fez parte da seleção brasileira campeã da Copa América de 1989 e foi o camisa 10 do Brasil na Copa do Mundo da Itália, em 1990. Após encerrar a carreira como jogador, atuou empresário de jogadores e treinador de futebol (Grêmio, Fçamengo, Avaí, Ceará).

Foto: Sérgio Settani Giglio

Silas. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Parte 3

Pensando um pouco na transição de carreiras, você deixa de ser jogador, mas continua no futebol. Em que momento você se dá conta que vai deixar de ser um jogador de futebol? E aí o que fazer depois disso? Porque a gente sabe que não é uma passagem tranquila. Desde que começou até encerrar a carreira, passaram-se quantos anos?

Vinte e um. Quem pensa que é parecido se engana. Não tem nada parecido. Você passa de liderado para liderar. Você passa de fazer a sua e ajudar mais um a cuidar de trinta, com faixas etárias que vão de 17 até 38, gente sem filho, com idade para ser seu filho e com filho, com idade para ser seu neto! Então, você passa a ser gestor de gente, modelador de carreira. No Real Madrid, por exemplo, você não é só técnico. Eles são todos milionários. Você tem que ser modelador de carreira, ajudar os caras. Ali a briga é por glória. O cara quer glória! Dinheiro ele tem. Ele quer glória mesmo, ser o melhor do mundo. Aí entra num mundo de vaidades. Assim, é muito complicado, nem todo mundo está preparado. E nem todos estão preparados, principalmente, para continuar sendo honesto numa profissão de muita desonestidade.

Num começo, é difícil porque você vê que não está preparado para aquilo ali. Você não tem paciência para suportar muita coisa. Aí quando permanece, vê que começa a aparecer muita proposta. Por exemplo, eu era auxiliar do Zetti. Nós estávamos jogando em Santo André, Série B. Acabou o jogo, tinha três caras lá fora. Um eu conhecia do mundo do futebol. Veio conversar comigo:

— Oi, Silas! Esses aqui são meus sócios e tal. A gente está procurando um número 10.

— Olha, nós jogamos contra o Remo, lá em Belém, e tem um número 10 lá que eu gostei demais! Não me lembro do nome dele, mas é o 10 do Remo e tal, tal, tal… – falei.

— Ah, legal! – responderam.

A gente terminou a Série B. O Zetti saiu e eu assumi o Ceará. Estou andando em Fortaleza, no shopping, e toca meu telefone. Era um daqueles três caras:

— Oi, Silas! Lembra-se de mim? Eu estava com aquele seu amigo lá em Santo André?

— Ah, me lembro.

— Então, eu queria que você me desse o número da sua conta para nós.

— Como assim? – me espantei.

— Sabe aquele 10 que você falou pra gente?

— Sei.

— Então, a gente comprou ele, já o vendemos e queríamos dar a sua parte.

— Espera aí! – falei – Você quer dar dinheiro para mim porque eu falei para vocês que tinha um jogador lá que era bom?

— É, a gente trabalha assim.

— Olha, meu amigo, eu já sou reconhecido pelo clube que eu trabalho. Você, por favor, não me telefona nunca mais!

Se eu dou o número da minha conta para esse cara, pronto, acabou, eu entro numa lista… Sabe? E muitas vezes os clubes deixam de me contratar justamente por não estar nesse sistema… de aceitar empresário mal intencionado e essas coisas todas. É um preço que eu decidi pagar. Tem muita gente que faz isso, mas tem muita gente que se deixou levar, às vezes por necessidade, às vezes por ser mau-caráter mesmo.

E é muito difícil trabalhar numa lógica de contrato de risco. Você está contratado, mas não sabe quantos jogos vai ficar lá. Isso é uma das principais dificuldades em ser treinador no Brasil?

É a maior e a que causa maior desgosto para a classe de treinadores. A gente conversa muito, o tempo todo. Nós já somos muitos treinadores para poucos clubes. Somos mais de 200 treinadores para 60 clubes praticamente, Série A, Série B e Série C. Desses 60 clubes, menos da metade pagam em dia. E há ainda essa questão da pouca permanência no lugar. Imagina: você muda, aluga casa, muda carro, alguns mudam família, põe na escola, e fica 15 dias e tem que mudar tudo de novo. Aí o treinador prefere ir sozinho. Vai sozinho e… sofre assédio. Aquele que já tem propensão para isso vê a família acabar por causa de uma besteira. Então, é muito difícil. Tem aqueles que conseguem ter, mesmo como treinador, uma carreira paralela. Porque a grande verdade é que uma minoria conseguiu guardar dinheiro como ex-jogador. A grande maioria… Tanto que o curso da CBF é um curso caro, de quase 50 mil reais os quatro anos, e nem todo mundo pode fazer o curso. A grande maioria não pode fazer o curso. É muito complicado.

Você passou por grandes clubes não só como jogador, mas também como treinador. No Brasil, tem uma prática muito comum nos grandes clubes: todos têm categorias de base, mas não necessariamente os jogadores dessas categorias vão servir ao time principal. Estatisticamente, deve ser algo mínimo. Como jogador, você saiu de uma categoria de base e fez toda sua carreira. Você, como treinador da equipe principal, tenta olhar para a base?

Está dentro da minha filosofia de trabalho. Em todos os clubes que passei, uma vez por semana pelo menos treino contra o sub-20 e o sub-17. Eu trabalho mais com o sub-20, trazendo os do sub-17 que têm capacidade para estar ali, para poder justamente analisar os atletas, fazer um treino que se aproxime da realidade. Porque existe muita rivalidade entre base e profissional, principalmente sub-20, que já são quase profissionais, têm físico de profissional, e o treinador da base não quer perder para o time de cima. Ele também quer ser treinador do time de cima. Então, eu faço sempre o time titular do profissional contra o time reserva da base, porque aí não tem rivalidade. E o time reserva do profissional contra o time titular da base, porque aí o pau pode cantar que não tem problema nenhum, é até bom. Aí você vê quem aguenta a questão da regra com a temperatura alta. O cara não vai para as vias de fato, para a briga e tal. Isso tudo é pensado e é bom.

Isso aí, quando o clube te contrata, você já pergunta qual é a ideia para a base: “Primeiro, a base vai usar o mesmo sistema do profissional?”. Eu trabalho com a base porque uma das funções do treinador no Brasil, em qualquer time, seja pequeno ou grande, é produzir atleta. Porque aqui aparece muitos atletas. O São Paulo perdeu muitos atletas (Casemiro, Lucas, Jean, Oscar, Breno Lopes) por conta de não ter feito uma boa gestão dessa transição, da base para o profissional.

Você se deparou com clubes que exigiam apenas olhar para o profissional?

Não, a maioria queria esse olhar para a base, mesmo que na caminhada não tivesse espaço. Porque essa é uma realidade. Às vezes, você tem dois laterais direitos muito bons e tem um menino lá pedindo passagem, mas não tem onde colocar. Então, tem que tentar emprestar o menino, fazer alguma coisa, fazer ele esperar o tempo dele. Porque isso acontece. Aconteceu exatamente isso comigo na Portuguesa. Acabou que na minha gestão não tive como dar essa oportunidade.

Silas exibe sua coleção de camisas. Foto: Marcel Diego Tonini.

Como lidar com pressão tanto dos dirigentes quanto dos empresários? Você vem de uma época em que o empresário começou a ganhar vulto no futebol. Hoje os clubes são praticamente refém dos empresários ou até dirigentes-empresários. Por isso a pergunta: como lidar com tudo isso?

Primeiro, não saber quem é de quem. Quando chego em algum clube, falo: “Não quero saber quem é de quem. Não me interessa. Porque aqui vai ser meritocracia. Quem merecer vai jogar e ponto final.”. E, enquanto você está ganhando, ou seja, enquanto o time está tendo resultado, a tua palavra é final. Começou a empatar ou a perder, aí eles vão te trocar… Nós temos hoje quatro ou cinco treinadores que cruzaram a linha do Equador, como a gente costuma dizer: Abel Braga, Dorival Júnior – não em termos de títulos, mas de moral –, o Luxemburgo… Veja você: é difícil até de nominar os caras.

A galera toda está nessa batalha desenfreada da “dança do banquinho”, da “dança das cadeiras”. Sai, entra, sai, entra… Nós temos um WhatsApp dos treinadores, e toda semana os caras estão falando com treinadores: “Ah, tranquilo. Vida que segue. Daqui a pouco uma outra porta vai se abrir.”. Está desse jeito… Os empresários acabam tendo muitos jogadores num mesmo clube e acabam virando meio sócios, donos dos clubes. É uma questão business mesmo! E interfere muito. Nenhum clube aqui no Brasil consegue fazer dois, três anos com um mesmo grupo, como faz o Real Madrid, o Barcelona… Nenhum, nenhum!

Você chegou a falar em sua palestra, antes desta entrevista, que os treinadores aqui no Brasil estão procurando sair e atuar no Oriente Médio, na Ásia, onde quer que seja. Isso é um sentimento seu ou é algo mais geral dos treinadores com quem você conversa?

Não, é geral, geral, geral… A maioria dos treinadores quer atuar fora por conta do respeito. O cara quer ser respeitado. Não tem jeito. Só que a gente, por conta da nossa licença, ainda não é reconhecido pela UEFA. Então, a gente esbarra. Nós temos o Vinícius Eutrópio trabalhando na Bolívia. Aqui na América do Sul, pelo que eu me lembro, só ele. Um ou outro trabalhando lá no mundo árabe, mas que já estavam lá, e mais nada. Assim, está muito difícil de ir trabalhar fora hoje!

E com essa desmoralização de nossa cúpula maior, da CBF, fica mais difícil, porque eles vão reivindicar o quê? Eles não podem reivindicar nem para eles, quanto menos para nós que somos treinadores. Então, a classe está tentando se organizar. Temos a Associação dos Treinadores, a FBTF, da qual até eu faço parte da diretoria, junto com Mancini, Dorival Júnior, Jorginho. Mas… é uma luta que até agora tem se mostrado muito desigual. Temos muita dificuldade para conseguir dar dois passos.

Silas com a camisa que ganhou do Neymar. Foto: Marcel Diego Tonini.

Mudando um pouquinho de assunto, você sempre deixou claro que sempre foi cristão. De que maneira sua religiosidade te auxiliou na carreira? Você até falou do Alex Dias Ribeiro, ex-piloto. Você entrou para os Atletas de Cristo desde os anos 1980? Como foi isso?

Na verdade, a minha relação com a fé vem de berço. Eu e meus irmãos nascemos num lar cristão. Meus pais eram, e a gente cresceu ali. O cara que casou as minhas irmãs, todas elas, foi o cara que me casou também. É o pastor da nossa igreja até hoje, é um cara que nos acompanha enquanto família. Então, isso acabou sendo um alicerce de gente de boa em volta da gente. E a fé, propriamente, dizendo para gente. Além de ela nos ajudar na questão ética, a gente nunca teve vício lá em casa, de nada! Isso sempre, inclusive na profissão, ajudou muito. Casamento, criação de filhos, tudo isso você tendo um padrão, que nunca partiu para lado de fanatismo e nada disso, sempre ajudou muito. Até hoje a gente vive rodeado disso e feliz. Eu ando muito com ex-atletas que pensam diferente, mas sempre houve respeito. Quando chega a hora de fazer isso ou fazer aquilo, ou quando o cara quer partir para alguma coisa diferente e a gente não, sempre houve respeito e todo mundo se aceitou. Então, muito legal.

Sua religiosidade foi uma base para você fora do Brasil, pois esse é o discurso de alguns ex-atletas que emigraram numa época em que tinham poucos estrangeiros?

A criação dos Atletas de Cristo começou com João Leite, em 1978. Foi a Eliana, esposa dele que jogava no Minas Tênis Clube e na seleção brasileira, que deu o nome de Atletas de Cristo. Os Atletas de Cristo foram uma… entidade sem fins lucrativos que acabou ajudando a cuidar dos atletas.

Eu me lembro que o Alex Dias Ribeiro fazia reuniões na casa dele, e as reuniões eram temáticas. Por exemplo: o Atleta de Cristo e o dinheiro, o Atleta de Cristo e a fama, o Atleta de Cristo e o banco de reservas, o Atleta de Cristo e a titularidade, o Atleta de Cristo e o namoro. Sempre usava padrões bíblicos, de ética cristã e tudo. Como que os atletas se comportavam naquela situação ali? Exemplos de como não fazer uma determinada coisa. A gente sempre foi crescendo assim, auxiliado por isso. Então, eu sempre soube me comportar nessas diversas situações: com dinheiro, sem dinheiro, no banco, no time titular, com fama, sem fama, machucado… Poxa, acho que juntou o útil ao agradável!

Eu namorei quatro meninas em minha vida inteira, contando com minha mulher. Eu tinha 12 anos de idade e eu fui falar com o pai da menina com quem queria namorar, que tinha 11. Namorei um ano, um ano e meio. Imagina um menino de 12 anos pedindo para um pai para namorar com sua filha de 11… A Eliane foi minha quarta namorada, e a gente casou. Então, já juntou minha maneira de ser com aquilo que os Atletas de Cristo proporcionavam para a gente. Deu certinho! He! He! He!

Confira na semana que vem a última parte da entrevista.

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