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Silas (parte 4)

Equipe Ludopédio

Paulo Silas do Prado Pereira foi um dos principais jogadores brasileiros entre as décadas de 1980 e 90, atuando em vários clubes: São Paulo, Sporting de Portugal, Sampdoria-ITA, Internacional (RS), Vasco da Gama e San Lorenzo-ARG. Fez parte da equipe conhecida como “Menudos do Morumbi”, comandada pelo treinador Cilinho. Silas fez parte da seleção brasileira campeã da Copa América de 1989 e foi o camisa 10 do Brasil na Copa do Mundo da Itália, em 1990. Após encerrar a carreira como jogador, atuou empresário de jogadores e treinador de futebol (Grêmio, Flamengo, Avaí, Ceará).

Foto: Sérgio Settani Giglio

Silas. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Parte 4

Olhando para essa sua trajetória como jogador e como treinador, você faria algo diferente do que fez, das decisões que tomou ao longo desse processo? Olhando para o que construiu, acertou, errou, mudaria algo em sua trajetória?

Não, eu não mudaria nada. Eu acho que a maturidade só vem com os erros e os acertos. A gente vai aprendendo ao longo do tempo. Hoje vão muitos meninos e meninas da idade do meu filho Kaleb, de 18, 19, 20 anos, lá em casa. Muitos têm piercing na boca, no nariz, cabelo verde, azul… Eu falo: “Está certíssimo! A hora é agora! Não partindo para droga, para coisa errada, a hora de fazer isso é agora. Daqui a pouco vai virar, vai começar com negócio de querer casar e não sei que, e muda, vai parar com isso daí de uma forma natural.”. Assim, eu acho que tudo tem o seu momento de acontecer desde que a coisa caminhe de uma maneira natural. Quando eu estava nessa fase, como todo menino que estava jogando em um time de primeira divisão e na seleção brasileira, gostava de dinheiro, tênis, relógio e essas coisas todas. Teve uma época em que eu até curtia essas coisas, tinha mais do que precisava. Até que um dia o Alex falou assim para mim:

— Silas, eu vi uma definição de consumismo muito legal.

— Qual é? – perguntei.

— Comprar o que a gente não precisa com dinheiro que não tem para agradar quem não conhece.

Quando ele falou aquilo para mim, eu fiquei pensando: “Puxa, é verdade!”. Eu me lembro que eu comprei uma vez uma bota. Tudo bem, ela se pagou, tenho ela até hoje! Até hoje, para falar a verdade. Ela é muito boa e custou muito caro. Eu estava numa loja, e as pessoas me reconheceram. Aquele monte de gente veio me pedir autógrafo, e eu com a bota na mão. O vendedor, lógico, a bota custava caro pra caramba! Era caro mesmo, não era barato, não! Eu comprei a bota de vergonha de falar que não queria a bota. Por isso que, quando eu comecei a entender melhor essas coisas, falei: “Puxa, é verdade! Isso é comprar o que não precisa.”.

Uma coisa que me esqueci de falar na palestra é isso. Quando disse que 78% dos atletas estão falidos, desempregados e divorciados dois anos depois que se aposenta, faltou a eles alguém falar para não comprar o que não precisa com dinheiro que não tem para agradar quem não conhece. Isso mexe com as pessoas. A gente quando vai comprar uma coisa pensa: “Eu não preciso disso daqui. Eu tenho até uma lá em casa que é parecida, que é igual e não sei quê.”. Para quem tem muita grana, um Neymar hoje, que vai precisar fazer muita besteira para perder o dinheiro, pode sim não fazer diferença, mas para a grande maioria faz muita diferença lá na frente. Sabe aqueles centavos pequenininhos da pastelaria? É assim que eles ganham dinheiro, é na quantidade, no centavos. Eu vejo que tem muita gente sendo ajudada por essas questões.

Então, eu não me arrependo de nada. Eu sempre aprendi que Deus só enche depósito que está vazio. A gente nunca gastou dinheiro com coisa que tivesse nada a ver. Nunca abri um negócio que deu errado, mas também nunca fui mão-fechada. A gente sempre ajudou com sabedoria pessoas e vê a resposta disso hoje. Tem algumas coisas que a fé só se explica por ela mesma. Você tem que dar o passo para ela acontecer. Quer dizer, eu vejo hoje algumas coisas que aconteceram na vida da família, dos filhos, da nossa, seja financeira, seja física, seja em termos de saúde, que a gente teve que pagar para ver. Isso só vai aumentando a nossa fé. É isso.

Tenho problema como todo mundo. Minha irmã mais velha está com câncer, mas nem por isso está infeliz ou deixou de acreditar em Deus. Não, nada disso. Enquanto a gente está aqui, está sujeito às coisas como qualquer um.

Além da questão do dinheiro, de poder faltar na vida pós-atleta, tem também a questão de estar fora dos holofotes. Como você lidou com isso após pendurar as chuteiras?

Eu acho que a realização da gente vai mudando de lugar. Eu não sei o que ainda vai acontecer comigo como técnico. Assim como foi como jogador, amanhã ou depois posso ir para a seleção, como posso não ir. Isso pode acontecer, não sei. Mas hoje minha realização já é no filho, porque eu já estou entrando daqui a pouco na terceira etapa. Daqui a pouco vou passar para o terceiro tempo. Então, primeiro, quero viver esse terceiro tempo o melhor que eu puder. Quero desfrutar nesse terceiro tempo da vida de significado. O que vai ser? Vai ser meu neto. Ele vai ser mais importante do que ganhar 5 milhões de euros lá na Rússia, na China ou sei lá. Se alguém me perguntar:

— Você quer 5 milhões de euros por seis meses?

— Não, não quero.

— Mas por que não?

— Porque quero ficar passeando com meu neto no jardim e tomar sorvete com ele.

Eu já não tenho mais tanto tempo de vida para viver quando chegar essa época. O Parreira sempre falou isto para mim: “O técnico tem três fases. A do trabalho, que são dez anos. Onde aparecer você vai! A de colher o que plantou nesses dez anos, que é a segunda fase. É o do sucesso. E a terceira fase é a da significância, justamente essa de falar ‘não’ para um negócio que todo mundo falaria ‘sim’, mas porque a realização não está mais no que você vai fazer, mas no que seu filho, sua nora, seu neto vai fazer.”. Eu acho que, quando a gente consegue entender essas estações da vida e viver cada uma delas no passo dela, estamos caminhando bem.

Silas durante a palestra. Foto: Marcel Diego Tonini.

Que lições que você tira de toda sua carreira, considerando suas experiências enquanto atleta, enquanto treinador? E que mensagem que você deixa para quem for ler sua história?

Assim, como eu aprendi muito baseado nas questões de fé, eu acho que, à medida que o tempo foi passando, fui vendo que as coisas foram acontecendo. Eu acho legal que o Abílio Diniz, quando teve que fazer a reformulação no Grupo Pão de Açúcar, usou muito das questões éticas e de comportamento da Bíblia nas questões dele. Escreve isso no livro dele, em sua autobiografia. Teve que mandar muita gente embora e não sei que, mas ele reformulou tudo. Por exemplo: Josué, 1:8,9. “8 Não deixes de falar deste livro da lei, antes medita nele de dia e de noite, para tenhas o cuidado de fazer tudo o quanto nele está escrito; então farás prosperar o seu caminho, e serás bem-sucedido. 9 Não te mandei eu? Seja forte e corajoso; não temas, nem te espantes; porque eu, o Senhor teu Deus, estou contigo para onde quer que você vá.”.

Nós, no Sporting, jogamos contra o Ajax. Quando a gente estava entrando em campo, eu batia aqui na perna do cara, do holandês. Pensei: “Como esses caras podem ser tão grandes?”. E eu me lembrei disso! “Não temas, nem te espantes.”. “Tá bom! Ele é grandão, mas como é que vai me pegar por baixo?”. Aí botei a bola no chão e saía correndo. Depois, no Salmo 37:23,24, diz assim: “23 Deus firma os passos de um homem bom quando a conduta deste o agrada. 24 Ainda que tropece, não ficará caído porque o próprio Deus o toma pela mão.”.

Ou seja, aqui está falando de, primeiro, tentar ser bom; segundo, vai acontecer um erro, mas mesmo quando acontecer saber que não é para ficar caído porque errou. Está a questão da humanidade da pessoa. E, lógico, saber que a gente vai errar. Não é porque está andando com Deus que Ele vai te privilegiar, vai te favorecer em detrimento do outro. Não, o sol nasce para bom, nasce para ruim. Mas eu acho que você consegue ver a dificuldade de uma maneira diferente, assim como a fama. O legal é isto: ver a fama com pé no chão, e conseguir ver a dificuldade com o pé mais alto um pouco. É pensar: “Isso aqui algum fim tem.”. É isso aí.

Deixar alguma coisa para as pessoas é muito relativo, porque tem muita gente que não tem como mais voltar atrás em algumas coisas. Por exemplo: o cara que já se separou e está em outro casamento. Não tem mais como ele voltar ao primeiro. Ou perdeu alguém. Ou o Pedro e o Fernando Collor, que terminaram praticamente inimigos, sendo que um deles faleceu. Esse tipo de coisa que eu acho que a pessoa, de repente, vai ter mais dificuldade para se perdoar, ou para trabalhar isso em sua vida.

Fora isso, acho que é mais agradecimento mesmo… pelas coisas que me foram oferecidas e eu conseguir administrar sem me perder nem para cima, nem para baixo. Entendeu? Nem viajar, me achar o melhor do mundo e desprezar, e também nem achar que isso não era para mim. Por exemplo: eu nunca pensava essas questões das palestras. Era uma coisa, assim, que foi acontecendo, acontecendo, acontecendo… Eu vou falar agora dia 11 de junho para um pessoal lá em São Paulo. Para 500 pessoas! E é muito legal porque, quando você vai alinhar, a pessoa te fala: “É isso mesmo que a gente quer!”. Já falei para um mundo de gente. Não tenho que inventar nada! Porque uma das primeiras coisas que um palestrante precisa ter é saber contar história. Eu não preciso inventar nada porque tudo que conto aconteceu de fato. Então, não tenho que mentir, não tenho que fantasiar. E eu acho que é bom. O Alex sempre dizia para mim: “O talento que Deus deu para a gente, se a gente conseguir usar isso em favor de alguém, estamos em sintonia com o chefe lá de cima.”. Se a gente usar o talento que Deus nos deu em benefício de alguém, já estamos no caminho certo.

Foto: Sérgio Settani Giglio

Silas durante a gravação. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Silas, o que é o futebol para você?

É a terceira coisa que eu mais agradeço. Deus, minha família e futebol. O futebol, praticamente, me deu tudo. Tudo que eu conquistei foi através dele.

Pensando um pouco nessas histórias que você nos contou, qual é sua partida inesquecível, aquela que você queria jogar de novo, que te colocou em outro lugar no mundo do futebol?

Ah, eu acho que Brasil e Argentina, no Maracanã, com quase 200 mil pessoas! Nós ganhamos de 2 a 0, com Maradona, Caniggia, Ruggeri, Pumpido, todos aqueles craques argentinos, que tinham sido campeões mundiais em 1986. Isso foi três anos depois, em 1989. E a gente deu um baile na Argentina naquele dia! Eu dei um passe para o Romário ajeitar para o Bebeto fazer o golaço daquela Copa América. Quando tem Copa América, e que a gente está descendo nos aeroportos, esse gol está passando na tela das TVs dos aviões. Então, acho que esse jogo aí, pela seleção brasileira, foi meu jogo-chave.