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Silas

Equipe Ludopédio

Paulo Silas do Prado Pereira foi um dos principais jogadores brasileiros entre as décadas de 1980 e 90, atuando em vários clubes: São Paulo, Sporting de Portugal, Sampdoria-ITA, Internacional (RS), Vasco da Gama e San Lorenzo-ARG. Fez parte da equipe conhecida como “Menudos do Morumbi”, comandada pelo treinador Cilinho. Silas fez parte da seleção brasileira campeã da Copa América de 1989 e foi o camisa 10 do Brasil na Copa do Mundo da Itália, em 1990. Após encerrar a carreira como jogador, atuou empresário de jogadores e treinador de futebol (Grêmio, Flamengo, Avaí, Ceará).

Foto: Sérgio Giglio

Silas. Foto: Sérgio Settani Giglio.

PARTE 1

Silas, conte-nos sobre sua origem, sua família, seu bairro, sua infância em Campinas, se você frequentava os estádios da cidade, onde há uma rivalidade muito grande entre Ponte Preta e Guarani, e sobre como surgiu seu interesse pelo futebol.

Eu sou natural aqui de Campinas. Quando pequeno, nós moramos ali no campo da Mogiana. Do lado do campo da Mogiana tem uma quadra. Tinha umas oito casas ali, e nós moramos em uma daquelas casas. Depois, mudamos para a Vila Teixeira, onde a gente passou a maior parte de nossa infância. Ali foi onde nós começamos os primeiros passos no futebol e onde as pessoas envolvidas com futebol começaram a dizer: “Olha, esses meninos levam jeito!”. Como o irmão mais velho foi jogar no Guarani, a gente começou a perseguir o sonho, também, de ser jogador de futebol. Ele se transformou rapidamente num profissional.

Naquela época, quando eu era adolescente para jovem, a Ponte Preta tinha uma das melhores categorias de base do Brasil. Então, eu fui à Ponte Preta, primeiro, para fazer testes, mas eu não sei, assim, as burocracias daquela época: “Ah, vem segunda que vem. Ah, vem segunda que vem. Ah, vem segunda que vem…”. Até que meu irmão me falou: “Olha, se você achar que eles estão te enrolando, não vai mais.”. Aí eu fui para o Guarani, e foi a mesma coisa. Enrolaram, enrolaram… Quando eu consegui fazer um teste no Guarani, eles me pediram para voltar depois de um mês. Nesse intervalo, eu fui chamado para fazer teste no São Paulo e passei. Acabou que tive que me mudar para lá e, assim, começou praticamente minha carreira como atleta de futebol.

Isso foi em 1982. Um cara daqui de Campinas, cujo nome era Cidinho, que já tinha trabalhado no São Paulo, me viu jogando e falou:

— Você quer ir ao São Paulo fazer um teste?

— Olha, eu trabalho – respondi. Então, se você vai mesmo me conseguir alguma coisa, que seja uma coisa certa, porque provavelmente eles não vão me permitir ficar uma semana sem trabalhar para fazer um teste num clube de futebol.

— Não, eu vou te mandar para o São Paulo. – respondeu.

Porque, como naquela época meu irmão mais velho já jogava e muitas pessoas queriam ficar bem com ele, diziam que iriam arrumar coisas para o Paulo – meu irmão – e para mim. Mas ali não. Ali, realmente, ele tinha a intenção de me mandar para o São Paulo. E me mandou! Eu pedi demissão do trabalho que eu tinha e fui. Na segunda semana de treinos, eu fui aprovado… Eu me encontro de vez em quando por aí com o Cidinho. Tenho um eterno agradecimento por abrir essa porta num clube como o São Paulo.

O que isso representou para você? Você tentou nos clubes da cidade e teve essas dificuldades. De repente, estava numa “cidade grande” num clube que tem muito mais projeção do que os clubes de Campinas. Como foi a questão familiar? Você passou a morar lá?

Justamente. Literalmente, foram males que vieram para bem, porque a Ponte Preta acabou fechando a porta, o Guarani também. E eu fui para o São Paulo, sendo que estava prestes a ir para Porto Alegre. Só que meu pai ficou superprotetor por conta de nós termos perdido nossa mãe com 5 anos de idade. Então, ele tinha muita preocupação de que os filhos fossem se perder, ainda mais num ambiente de futebol, em que a escola ia ficar comprometida. Ele teve medo em torno de minha saída e da do Paulo. No fim, deu tudo certo. Minhas irmãs souberam nos educar. Meu irmão mais velho, também, soube ajudar meu pai a nos educar. E terminou que a gente está aí: o Paulo tem dois filhos, que se casam neste ano de 2018; e eu tenho um filho casado já, uma menina que se forma em Medicina e o mais novo que está jogando futebol e fazendo Educação Física. Então, sou muito feliz em termos da caminhada da família.

E qual foi o papel do José Carlos Serrão e do Cilinho para que você chegasse ao time profissional do São Paulo?

Ah, esse daí… O Cilinho foi meu pai lá no São Paulo junto com o professor José Carlos Serrão. Eles não só nos davam diretrizes técnicas como me ajudaram a me educar. Quando a gente acabava os jogos, eu vinha para Campinas com o Cilinho. Ele nunca depois de um jogo perguntava sobre o jogo! Ele só me questionava sobre as questões familiares. Ali, na estrada de São Paulo para Campinas, o Cilinho era o psicólogo, não era nem o técnico, nem o pai. Era o cara que sondava para saber como eu estava e me ajudava a ajustar o que estava fazendo com meu dinheiro, onde e quem estava investindo o que ganhava. Eu me encontrei com a neta dele nesses dias, e ela falou:

— Meu avô sempre fala muito de você!

— Muito do que sou hoje eu devo ao seu avô, ao Cilinho! – disse a ela.

Ele foi peça fundamental na minha carreira e na minha vida, porque pontuou coisas dentro e fora do campo.

O Cilinho teve uma grande projeção no futebol brasileiro nos anos 1980. Nos anos 1990, ele saiu um pouco de cena, do futebol profissional foi para a base. Por que se deu isso? Um técnico com aquela projeção toda, que tinha uma cabeça diferente em relação a muitos outros treinadores, estava, de repente, dentro dessa lógica, numa categoria inferior ao seu potencial. Foi isso realmente que aconteceu?

É certo, mas eu acho que ele foi muito prejudicado por essa falta de conhecimento do dirigente e também por ele ser perfeccionista ao extremo. Eu me lembro que, quando nós ganhávamos jogos importantes contra Corinthians e Palmeiras, por exemplo, de 2 a 0, 3 a 0, a gente chegava ao vestiário, o abraçava e falava:

— Que vitória, chefe! – era assim que a gente o chamava.

— Se nós ganhamos de 2, vamos pensar a fórmula para ganhar de 3. Se ganhamos de 3, é porque podíamos ter feito 4.

Então, ele estava sempre pensando em melhorar. E quando pintou, talvez, a grande chance na vida dele de ser técnico da seleção brasileira, eu acredito que o que foi oferecido para ele não satisfez seus ideais para esse importante cargo. Porque potencial ele tinha de sobra.

E ele foi um treinador que sempre gostou, também, de formar jogadores. Estava no coração dele isso. O Careca, não, porque veio do Guarani. Mas o Müller, o Sidnei, o Vizolli, o Renatinho, eu, Newtinho e mais, assim, um mundo de gente! Depois, quando voltou ao São Paulo, para ser diretor na base, ele fez a mesma coisa. Muitos desses meninos que estão aí são frutos do trabalho dele, um trabalho muito meticuloso, muito especializado.

Vocês têm razão nisso que falaram. Ele mesmo se negou o direito de se transformar num dos melhores técnicos do Brasil de toda a história.

Essa história de ele ser técnico da seleção em que ano que aconteceu?

Em 1985-86, para ser o técnico da Copa. Eu me lembro que o que ofereceram a ele quanto a tempo de trabalho parece que não era o ideal. Ou tinha alguma coisa ali que ele sabia e que ninguém mais sabia, por exemplo: “Vão me usar para montar um trabalho e depois vão me tirar.”. Foi o que aconteceu com o Muricy Ramalho agora. Depois de 2010, ele foi chamado, mas o contrato era até 2012. Ele falou: “Não! Se for para me contratar, me contratem até 2014.”. Então, já tinha, assim, um pouco dessa rivalidade entre Rio e São Paulo, que de uma forma bem sutil ainda existe.

Foto: Sérgio Giglio

Silas durante palestra na Faculdade de Educação Física da Unicamp. Foto: Marcel Diego Tonini.

Como foi sua transição das categorias de base para o profissional do São Paulo?

Eu fiz aspirante com o seu Pupo Gimenez e logo saí da base. Eu me lembro que fiz um ou dois jogos de aspirantes só. Nós estávamos jogando no Morumbi contra o Juventus, e os profissionais já estavam se trocando para jogar o jogo principal. Eu fiz um gol da entrada da área por cobertura. Quando acabou o nosso jogo e eu desci para o vestiário, quando estava entrando para o meu lugar, o Cilinho me chamou, me segurou pelo braço e falou: “Terça-feira você se apresenta aqui.”. Ha ha ha… Acho que foi um dos dias mais felizes da minha vida! O time dele ia jogar! Estava prestes a entrar em campo com o profissional, mas ele estava observando a base… Nunca mais voltei para a base! Ali foi, assim, uma saída de uma vez por todas.

E graças a ele! Porque o São Paulo naquela época não tinha ainda a cultura de promover jogadores da base. Eles emprestavam jogadores da base para times do interior, como América de Rio Preto, XV de Jaú, XV de Piracicaba, Marília. Os jogadores que despontavam eles traziam de volta. E ali começou uma nova era no São Paulo. Eu me lembro que o Cilinho teve problema com a direção quando subiu o Müller e eu, saindo daquele formato de emprestar e trazer de volta. Então, aquilo ali foi um marco na história do São Paulo, o Müller e eu termos subido e dado certo logo de cara.

A gente já tinha sido campeão do mundo em 1985, campeão paulista em 85, depois fomos para a seleção brasileira em 86, bicampeão paulista em 86 e campeão brasileiro em 87. Quer dizer, dos cinco títulos que disputamos pelo São Paulo, ganhamos praticamente quatro! Só não ganhamos o Campeonato Brasileiro, que viemos a ser no ano seguinte. Então, foi realmente devido a esse olhar e a esse trabalho que teve com a gente. E se arriscou, colocando dois meninos de 18, 19 anos, mas ele viu o potencial.

Silas, pesava para vocês nesse momento o rótulo de “Menudos do Morumbi”? Havia alguma pressão? Como o grupo lidava com isso?

“Menudos do Morumbi”, “Menudos do Cilinho”, eles falavam… Na verdade, não. Porque eram duas linhas completamente diferentes, era só um paralelo de sucesso. Os Menudos tinham até 16 anos. Eu me lembro que o Ricky Martin tinha 11 anos, menininho de tudo. E a gente, naquela época, usava um cabelo parecido com o deles. Aí eles associaram o nosso sucesso com o sucesso deles, o cabelo, o momento da carreira. Acabou que, até hoje aonde eu vou, eu escuto: os “Menudos do Cilinho”, os “Menudos do Morumbi”. Essa história está se perpetuando.

Os próprios Menudos sumiram com o tempo, mas vocês continuaram com o rótulo…

É, eles envelheceram, a banda acabou. Um ou outro foi fazer cinema. O Ricky Martin teve um sucesso bastante grande, mas hoje já não é tanto. Mas foi legal, foi legal na época. Só acho que a gente poderia ter aproveitado melhor, porque a gente não ligava para nada, só queria jogar bola. Eu me lembro que naquela época houve a possibilidade de a gente abrir uma franquia do McDonald’s, coisa que não tinha. Tinha uma ou outra loja do McDonald’s no Brasil. Mas não existia esse lado de explorar o lado comercial da carreira. A gente só estava preocupado em jogar, em crescer, em ir para a seleção brasileira, que era o sonho e o que acabou acontecendo. Não tinha pressão porque a gente era protegido pelos mais velhos, até porque a gente dava resultado para eles.

Os “mais velhos”… quem?

Oscar, Darío Pereyra, Careca. Toda terça-feira o Cilinho me trazia e o Careca me levava. O Careca tinha um empresário que morava perto da Vila Teixeira. Ele me pegava lá em casa toda terça-feira. A gente é muito amigo, irmão hoje. Mas eu o agradeço, porque, primeiro, ele está entre os cem melhores jogadores do mundo de todos os tempos. Segundo, porque ele, mesmo sendo essa estrela, sempre foi muito simples. E, terceiro, porque a gente anda muito junto e me ajudou muito nos meus começos, principalmente.

Quanto que o clube ajudou tanto você quanto os outros garotos do São Paulo a não se perder nesse caminho no começo da carreira?

Eu me lembro que o Cilinho chamou o Almir Pazzianotto, que na época era Ministro da Economia ou do Trabalho, para dar uma palestra para a gente. Ele chamou o próprio Oscar, zagueiro do clube, para dar palestra. Chamou o Alex Dias Ribeiro, ex-piloto de Fórmula 1. Ele levava a gente muito ao circo, ao teatro. Na véspera do jogo, coisa que ninguém fazia, a gente ia para o teatro, para o circo! O Mauro, pai do psicólogo atual das categorias de base do São Paulo, Gabriel Puopolo de Almeida, era ator, e nós víamos as peças dele. Sabe? Ele tirava aquela coisa só de ficar jogando sinuca! Eu nunca tive costume de baralho, mas ele tirava do baralho também! Fazia com que a gente saísse daquele mundo fechado do futebol, que talvez na cabeça dele pudesse trazer algum vício para um ou para outro, para abrir a cabeça, para ver outras coisas. Era muito, muito legal!

Você acha que isso ainda é possível hoje?

Eu fiz. Eu fiz no Avaí, e deu muito certo. Na Europa, se faz muito isso. Tudo bem que na Europa o futebol é um esporte somente, não é vida ou morte. Aqui o futebol deixou de ser… uma apresentação para o público. As pessoas vão ao estádio para desafogar seus problemas, suas angústias. Tanto que mulheres e crianças, em determinados lugares, não podem ir ou não vão por questão de segurança. Lá na Europa, não, é outro mundo. A pessoa compra um bloco de ingressos da temporada toda, porque realmente vai para ver um espetáculo. Eu acho que isso a gente tem que, de alguma forma, resgatar aqui no Brasil.

Com relação à seleção brasileira, fale de suas experiências desde o sub-20 até a principal, de sua vivência em Copas do Mundo.

Seleção brasileira foi muito legal. Antigamente, tinha seleção paulista contra seleção carioca, tinha Campeonato Brasileiro Sub-20 de seleções. Eu joguei Campeonato Brasileiro Sub-20 pela seleção paulista, junto com Müller e outros atletas. Joguei contra o Taffarel, da seleção gaúcha. Fizemos a final contra a seleção gaúcha. Então, existia todo um processo para você chegar à seleção brasileira. Depois da seleção do estado que você era convocado para a seleção brasileira. Eu fui convocado para a seleção brasileira sub-20 assim pelo Jair Pereira. A gente foi campeão sul-americano, depois campeão mundial. Nós fomos progredindo dentro da própria seleção, jogando contra os europeus, aprendendo as escolas europeias já desde a base. Aí quando você vai para a seleção brasileira principal e vai jogar contra uma Alemanha, você já sabe como os caras jogam, você já foi naquele país, você já enfrentou o frio, o idioma, a cultura. Não é uma novidade mais para você. Foi tudo muito de uma forma natural.

Eu não sei por que razão, desde que eu cheguei ao São Paulo, eu tive interesse por inglês. Uma das primeiras coisas que eu fiz foi ir lá para a Av. São João para aprender inglês. Aí fiquei com medo, porque tinha que pegar vários ônibus, correr a Av. Nove de Julho todinha. Tinha medo de pegar metrô. Naquela época saí, mas depois, logo que casei, fui com minha esposa estudar inglês. Estudei inglês na Argentina, estudei inglês nos outros países em que morei. Veja: uma coisa foi meio que chamando a outra. Muito do meu sucesso lá fora tem a ver também com a facilidade de se adaptar, de poder se comunicar, de poder se comunicar no idioma do país, de se adaptar à culinária, à cultura do país, ao clima… E sobre a seleção brasileira, eu conheço jornalistas hoje que se lembram de mim quando eu joguei Copa do Mundo de juniores, há 32 anos. Isso é muito legal!

E quais eram suas expectativas de ir à Copa do Mundo de 1986, tendo saído como melhor atleta da Copa do Mundo Sub-20, disputada em 1985?

Foi muito interessante, porque eu estava na seleção de juniores e eu me lembro que a vizinha do meu bairro – Dona Marinês era o nome dela –  falou assim para mim:

— Silas, no ano que vem você estará na Copa do Mundo do México!

— Dona Marinês – falei –, tenho só um ano de profissional. É muito difícil acontecer isso.

— Escreve o que eu estou te falando – ela falou.

Eu não sei se foi só uma opinião de uma pessoa leiga ou se realmente, sei lá, ela sentiu alguma coisa. Eu sei que em 86 eu estava na Copa do Mundo principal, com um ano de carreira, coisa que hoje é muito difícil acontecer. É necessário um tempo maior de maturação, de tudo…

Quando a gente foi para a seleção, nós fomos em sete jogadores do São Paulo. Darío Pereyra foi para a seleção uruguaia. Sidnei, Gilmar, Nelsinho, Careca, Oscar, Müller e eu fomos para a seleção brasileira. Fomos em sete! Isso ajudou muito a nos ambientarmos. Um ajudou o outro até aquele momento em que alguns de nós foram cortados e outros permaneceram.

Pensando essa estrutura inicial. O treinador em 1986 era o Telê, que havia treinado a seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982. Tem toda aquela questão da dimensão do “futebol arte”, que teria morrido naquela derrota para a Itália em 82, segundo a imprensa. E ele acabou retornando em 86 muito provavelmente porque o Cilinho não aceitou a proposta. Então, a primeira vez que trabalhou com o Telê foi nessa seleção? Essa dimensão de 82 fazia algum tipo de sombra para a seleção de 86? Isso aparecia como uma questão para vocês vinda, possivelmente, de vários lugares?

Sim, foi nessa seleção que trabalhei com o Telê. Na verdade, houve uma renovação, porque o Toninho Cerezo foi cortado, o Dirceu foi cortado, o Zico estava ali em um vai não vai, o Leandro foi cortado, o Renato Gaúcho foi cortado. Tínhamos alguns jogadores que eram mais jovens em 82, que tinham sido protagonistas na Copa da Espanha, mas que, em 86, perderam espaço e não foram. Então, de uma forma até natural, a seleção estava mesclada com novos talentos. O Careca tinha se machucado em 82, mas estava a mil em 86, tanto que ele foi o goleador de nossa seleção. O Müller estava aparecendo muito bem. Aí tinha os meninos mais novos: Valdo, Edivaldo, eu, Mauro Galvão, Branco, Jorginho. Era aquela turma que se juntou aos remanescentes de 82. Acabou não ficando uma combinação, assim, tão boa, por conta, não sei, de entrosamento ou o que é que foi. E a gente caiu fora para a França nas quartas de final.

Você jogou duas partidas nessa Copa.

É, eu entrei em duas ou três partidas nessa Copa. Contra a França eu entrei.

Você entrou bem no final.

Eu entrei quando começou a prorrogação. Joguei os dois tempos da prorrogação contra a França. E quase fiz um gol ainda! Eu me lembro que o Careca passou uma bola para mim da esquerda para a direita. Ajeitei e bati. A bola passou muito perto. Até tem um trecho no livro em que eu conto ali: “Aquela bola poderia ter mudado o destino da Copa.”. É, poderia mesmo.

E você não era uma opção para os pênaltis?

Eu estava em campo. Se o Júlio César fizesse o pênalti, o próximo seria eu. Eu estava com o coração…

E aí?

Ha ha ha… Eu ia ter que bater. Aí é aquela coisa, não tem jeito: você pode ficar marcado para sempre, para o bem ou para o mal. Porque é um caldeirão aquecido setenta vezes mais quando se trata de Copa do Mundo.

Foto: Sérgio Giglio

Silas conta a sua história. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Aí você vai jogar a Copa América de 1987 e a de 1989. Mas, a partir dessa trajetória, você…

Eu já era garantido, já estava entre os titulares. Aí chegou o Bebeto. Quando ele chegou, colou em mim e falou:

— O Zico falou pra mim colar em você.

— Então, cola! – falei.

Como ele já jogava com o Jorginho no Flamengo, e o Jorginho andava muito comigo já, passamos a andar os três. Aí veio o Bismarck. O Mazinho também se juntou a essa turma. Assim, não éramos os mais novos, mas também não éramos os mais velhos.

Foi um vexame em 87, nós tomamos de 4 a 0 do Chile. Eles tinham Ivo Bassay, Rojas e aquela turma lá. O goleiro Rojas pegou tudo contra a gente, tanto que depois veio para o São Paulo. Já em 89, tem o episódio do foguete no Maracanã. Eu estava jogando naquele jogo. Aí a gente não sabia o que ia acontecer, porque o jogo foi interrompido. Uma semana depois saiu o veredito, em que o Chile tinha sido desclassificado e que a gente estava na Copa do Mundo de 1990. Em 1989, a gente já foi campeão da Copa América. Ou seja, classificamos nas Eliminatórias e já fomos campeões na Copa América.

Ali foi quando o Lazaroni mudou o sistema para três zagueiros. Alguns de nós saímos do time: eu, Aldair, Mazinho, Bebeto e Romário. Entraram: Jorginho, Branco, mais um zagueiro, que eu não me lembro quem era… Ricardo Rocha. Ele não jogava. Jogavam Ricardo Gomes, Mauro Galvão e Aldair. Aí saiu o Aldair e entrou o Ricardo Rocha. O Lazaroni fez algumas modificações. No jogo em que nós jogamos melhor, que foi contra a Argentina, com três bolas na trave, aquele lance do Maradona que resultou no gol do Caniggia, nós caímos fora da Copa do Mundo de 1990 no jogo em que jogamos bem! Porque nós tínhamos jogado mal contra a Suécia, 1 a 0, jogado mal contra a Costa Rica, 1 a 0, jogado mal com a Escócia, acho que foi 1 ou 2 a 0, não me lembro exatamente. Eu me lembro que teve um jogo em que o Müller fez gol e o Careca fez também. Aí no outro o Careca fez e depois o Müller também… O Romário estava com o pé quebrado, estava meia-boca. O Bebeto também não estava bem. Então, foi aquela Copa do Mundo de 1990 que, por conta da desclassificação, se falou muita bobagem. Falaram que a gente não era unido, e não tinha nada disso. Nada disso.

Silas, voltando ao episódio contra o Chile, porque o desenrolar demora. E lá o que vocês ficaram fazendo? Vocês conversaram “vamos sair juntos” ou “vamos ficar”?

Ninguém sabia o que é que era de verdade. Eu fiquei muito triste porque acabou o jogo, mas muito triste! Das participações minhas na seleção principal, a Copa América e as Eliminatórias foram as duas edições ou ocasiões em que eu era titular absoluto. Fiquei muito triste porque a gente ia ter uma pausa até a Copa do Mundo, mas ali ninguém sabia nada o que ia acontecer. O Laza mudou depois. E, de fato, eu saí para a entrada do Alemão. Ficou: Dunga, Alemão e Valdo. Antes era: Dunga, Silas e Valdo. Então, fiquei muito, mas muito chateado.

E aconteceu um episódio muito legal numa época em que o Rojas já estava no São Paulo. Eu não sei se vocês se lembram que, contra o Chile, o Romário foi expulso antes do jogo começar! Ele deu um soco num jogador chileno e, antes de começar a partida, nós jogamos com um jogador a menos. E ainda conseguimos empatar o jogo! Só que no hotel em que estávamos o pessoal começou a jogar pedra. A gente não conseguia nem sair na porta do hotel! A esposa do Rojas levou um violão para mim. Eu fiquei com o instrumento musical. Liguei para eles lá no Chile e falei: “Quando for o jogo no Maracanã, eu entrego o violão pra vocês.”. Só que teve o episódio do foguete, e eu não consegui entregar o violão. Foi um cara lá e falou para mim:

— Deixa que eu levo o violão!

Acho que esse cara está com o violão na casa dele até hoje! Ha ha ha… Provavelmente. Porque o Rojas não recebeu o violão. Estive com ele agora lá no CT da Barra Funda, e ele não recebeu o violão, não.

Você conversou com ele sobre o episódio tempos depois?

Não conversei porque eu acho que foi, talvez, uma mancha muito grande, um motivo até de vergonha para a carreira dele. Nós tentamos. O Raí e todo o pessoal da seleção, nós fizemos um abaixo-assinado e mandamos para a FIFA. Porque ela baniu o Rojas do esporte. A gente pediu, mas eles não quiseram saber. Para algumas coisas, a FIFA é implacável mesmo. Não teve acordo. Ele teve uma doença muito séria. Ele se separou, e a esposa nova doou um rim para ele. Hoje, ele está muito bem. Mora no Brasil. Não está trabalhando em nenhum clube. Esteve no São Paulo muitos anos como treinador de goleiro, até assumiu o time algumas vezes interinamente como treinador do São Paulo… Fiquei feliz de reencontrá-lo e ver que está bem.

Voltando para a Copa de 1990, você chegou a jogar alguns minutos na partida contra a Argentina, não?

Eu entrei quando a gente tomou o gol. Aí eu recebi uma bola no meio de campo e joguei essa bola lá na área, não fiz um passe para ninguém. O Careca ganhou do Ruggeri e essa bola sobrou para o Müller a meio metro do gol. O Müller foi chapar uma bola que era cartão de visita dele, era chapar para empatar o jogo. Acabou que a bola foi para fora. Ali acabou a Copa e a história de muita gente na seleção brasileira. Para muitos terminou ali…

Como foi para vocês sair daquela Copa? Qual foi o sentimento, considerando a pressão da imprensa, que era muito crítica?

Ah, o preço que a gente paga é muito alto. É céu mesmo quando ganha e é inferno mesmo quando perde. Não tem jeito. Eu me lembro que, quando acabou o jogo, tinha alguns jogadores nossos no antidoping. Acho que o Careca era um deles. O Maradona entrou no nosso ônibus e ficou lá conversando com a gente. Nós estávamos esperando o Careca. E ele se sentou no banco, não foi lá tirar sarro de ninguém. Sentou mesmo como um companheiro de profissão e ficou lá. Alguns se sentaram em sua volta, outros, não, ficaram lá no fundo. Era um ambiente de velório mesmo, porque é assim que fica quando você perde e é desclassificado de uma Copa do Mundo. Mas faz parte. A gente cresce muito nessas… derrotas que são simbólicas… Em contrapartida, alguns jogadores de 94 e de 2002 foram campeões sem dar um chute na bola! Mas são campeões. Então, é o… é o futebol. A gente tem que, realmente, estar preparado para tudo, tanto para ser campeão e melhor do mundo como para ser eliminado e escutar: “Seleçãozinha! Olha a seleçãozinha aí! Perna de pau!”. É assim mesmo.