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Silvana Goellner (parte 2)

Equipe Ludopédio

A professora Silvana Goellner estava no radar do Ludopédio há tempos. Depois de alguns desencontros conseguimos realizar a entrevista durante um evento acadêmico no Rio de Janeiro. O evento, é claro, era sobre futebol de mulheres. Isso mesmo: futebol de mulheres e não futebol feminino. Quer entender esse posicionamento da professora Silvana? Fica o convite para ler essa inesquecível entrevista. Aprendemos muito com a Silvana e esperamos que você possa também aprender e muito com o que ouvimos naquela noite carioca. Boa leitura!

Professora Silvana Goellner. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Pensando a entidade, a CBF de algum modo trata muito mal o futebol sem fazer distinções. E quando faz as distinções não consegue olhar para o futebol feminino. Será que só com essa pressão interna é possível conseguir mudar essas estruturas ou precisa de mais frentes?

Eu acho que o futebol teria que radicalizar e ser feminista no sentido radical, ou seja, entender que mulheres são gente. Eu penso que o futebol de mulheres não vai avançar se não tiver uma politização, não só da CBF, mas das próprias atletas, de gestoras e gestores, enfim, de pessoas que atuam na modalidade. Não existe, por exemplo, um sindicato operante e essa desorganização colabora com as instituições porque há pouca pressão sobre elas no que tange a melhorias de condições para o futebol de mulheres existir e se ampliar. Não podemos esperar da CBF que resolva todos os problemas inclusive porque vários deles não dizem respeito exclusivamente a sua atuação. Ela não vai resolver. Um dos grandes desafios hoje é envolver nessa luta instituições, movimentos, e coletivos que possam fazer a diferença. Eu não consigo pensar em um futebol de mulheres mais estruturado se não tiver o envolvimento das atletas. É imprescindível que elas tenham uma politização mais forte e que compreendam a sua relevância para que a gente também possa avançar nesse processo. Como existe um grande desconhecimento da história da luta das mulheres para estar no futebol, as gerações mais jovens não sabem como foi este processo, os limites e as barreiras que as atletas que as precederam tiveram que enfrentar.  Hoje, por mais que as condições ainda sejam muito aquém do esperado, é outra situação e muitas atletas sequer imaginam o que aconteceu antes delas. A grande maioria das pessoas desconhece que por quase 40 anos o futebol, assim como outras modalidades esportivas, foi oficialmente proibido para as mulheres. Muitas jogadoras tiveram que comparecer a delegacia de polícia porque estavam jogando bola. Então, como podemos entender o retardo do futebol de mulheres se a gente não conhece nada do que aconteceu?  Por isso não acho que esteja tudo sob os ombros das CBF e das federações, ainda que sejam responsáveis pela gestão e desenvolvimento da modalidade. Há um trabalho árduo que envolve clubes, associações, grupos e pessoas.  Além disso, não podemos pensar apenas nesse futebol espetacularizado, dos grandes clubes, o futebol que aparece nas mídias.  A gente tem que pensar o futebol na sua ampla dimensão. O futebol é uma prática que acontece em espaços muito diversos, envolve pessoas de diferentes contextos culturais e sociais e é apropriado de modo distinto pelos grupos e pessoas que o praticam. Não é homogêneo. Talvez seja importante pensar que este futebol espetacularizado não seja o mais importante. Há que voltar o olhar para outras iniciativas que fazem do futebol uma ferramenta de empoderamento de mulheres e meninas.  Existem várias pessoas e vários coletivos que fazem coisas maravilhosas nesta direção. Com isto estou afirmando que há várias frentes que carecem de apoio, luta e dedicação. O mínimo a gente precisa tentar garantir para as mulheres que estão no futebol, que é viver da modalidade. Dar-lhes condições de sobrevivência sem que necessite jogar futebol e ganhar dinheiro para subsistir em outra atividade, entendes? Eu sei que há também um grande número de homens que não vive do futebol e que jogam futebol. Mas para as mulheres é muito mais difícil. Então, eu diria que a CBF não é responsável por tudo o que acontece ou deixa de acontecer na modalidade, mas ela tem responsabilidade porque é a entidade máxima, a que pode promover e incentivar  para que as federações filiadas promovam ações concretas e eficientes de  desenvolvimento da modalidade e de equidade de gênero.  Ela tem esta responsabilidade política. No próprio Museu da CBF há a ausência da história das mulheres no futebol. É como se elas não existissem. Lá existe uma parede – linda – com o nome de todos os jogadores que serviram a seleção. E não há nada sobre as jogadoras. Fico pensando que talvez a entidade nem tenha registro de todas as mulheres que defenderam a camisa da seleção brasileira ao longo de sua história. Isto é grave, é o apagamento de memórias, a anulação simbólica da trajetória de quem também construiu o futebol no Brasil. E volto a dizer: isto depende de vontade política e, não raras vezes, a vontade política emerge mediante pressão política. E pressão política geralmente não desponta dentro das instituições oficiais. Por isso que os movimentos e os coletivos são importantes. Neste sentido acredito que é necessário ter movimentos que agreguem mulheres e homens que acreditem no potencial do futebol de mulheres. Movimentos de cunho feminista no sentido de perceber que há uma grande desigualdade de gênero no futebol e que é preciso lutar para acabar com ela. Esta é uma disputa de poderes que envolve dinheiro, que envolve status, que envolve representatividade, que envolve uma série de questões. Outra questão que eu considero importante de pensar é a   falta de oportunidades que se dá para as mulheres no universo do futebol. É muito mais difícil para elas assumirem cargos técnicos e de gestão apenas porque são mulheres. A questão de gênero ainda é muito demarcada no campo do esporte.

Ainda pensando essa ideia de entidade, mas não mais a entidade CBF. Poderíamos pensar a Marta como sendo uma entidade entre as jogadoras. Ela tem um peso pela trajetória que construiu e que isso pesa para algum lado. Quando há a demissão da Emily ela não se posiciona de uma maneira pública. Quando a Marta faz isso ela acaba atrapalhando toda a estrutura do futebol de mulheres?

A Marta nesse processo pouco se posicionou e quando o fez declarou que tinha determinadas hierarquias que precisavam ser respeitadas. Eu acho que ela não atrapalha, mas eu penso que ela perdeu a chance de exercer um papel político determinante. Não posso dizer o que ela deveria ter feito. Mas se ela tivesse se posicionado fortemente naquele momento teria feito muita diferença. É incontestável seu papel político. Aquele discurso que ela fez na ONU falando da igualdade de gênero e chorando, no meu ver, poderia ter sido um discurso feito naquele momento da demissão da primeira técnica. Independente de quem fosse, ali havia uma questão fundamental para o futebol de mulheres: era a primeira mulher que assumia o comando da seleção principal e que estava há poucos meses no cargo sem disputar nenhuma competição oficial. Emily estava iniciando um trabalho de médio e longo prazo. Um trabalho que foi abortado. Foi um tempo muito curto, 10 meses. Neste sentido grupos, pessoas e instituições que tem mais voz poderiam exercer o seu papel político de pensar no amanhã. Isto é necessário: projetar um futuro para o futebol de mulheres. Ainda estamos pensando no imediato. A CBF tem pensado assim, no imediato: nos Jogos Olímpicos, na Copa do Mundo. Não temos um plano de desenvolvimento estruturado a longo prazo. Eu acho que isso é o fundamental:  projetar o futuro. Por exemplo, em alguns clubes que estão disputando o campeonato nacional estamos observando a formação de categorias de base. Isso é fundamental. Outros estão ali pensando no imediato da competição. Juntam atletas, montam um time e depois, após o campeonato, desfazem o time. Isso é interessante de se perceber. O futebol de mulheres tem uma outra dinâmica. Em um mesmo ano uma jogadora pode participar de três ou quatro equipes diferentes. O que é muito distinto do futebol dos homens. Uma jogadora, por exemplo, atua em um clube no campeonato nacional, joga o campeonato estadual por outra equipe e ainda participa da Libertadores por mais outra. Esta situação reflete a instabilidade do futebol de mulheres. É tudo muito tênue, é tudo muito sem chão para elas. Por conta disso, por ter esse caráter muito tênue eu até compreendo que muitas não se posicionem politicamente ou que não haja um pouco mais de intervenção política por parte das mulheres. Há um medo de perder o mínimo que tem. A gente percebe que há um certo isolamento daquelas que se manifestam. As vozes que se manifestam, às vezes, são praticamente isoladas do contexto. Isso é muito difícil porque perder o pouco têm é complicado. Agrega-se a isto a falta de suporte da mídia, o que torna a situação ainda mais difícil. Vejamos: com a demissão da Emily, a CBF ressuscitou o Vadão e o trouxe de volta, como se não tivesse tido uma péssima campanha antes de ser demitido.  Seu desempenho frente a seleção, nesta segunda oportunidade, se mostrou pífio. Foram 9 derrotas consecutivas e quase nada se noticiava sobre isso na mídia mais tradicional Era como se estivesse tudo bem, como se isto fizesse parte de uma preparação para participar de competições importantes como os Jogos Olímpicos e o Mundial. Seria muito diferente se estas derrotas tivessem acontecido com uma treinadora. Estas derrotas seriam, digamos assim, um atestado da falta de capacitação delas. Foi exatamente o que aconteceu quando a Emily foi demitida. O discurso que circulou pelas instituições oficiais, inclusive a CBF, foi de que ela ainda não estava preparada, que ainda tinha muito a aprender, que tinha um gênio difícil, etc. Enfim, os argumentos estavam voltados para a característica da pessoa e não para o cargo. É muito diferente dos discursos que circulam quando são os homens. Há uma narrativa completamente diferente e esta narrativa é generificada. Para as mulheres geralmente se menciona uma falta de capacitação para ocupar este lugar, a necessidade de se qualificarem. Isto raramente é mencionado quando se trata dos homens. É como se eles fossem naturalmente qualificados para estarem no futebol. Me parece que a narrativa aqui é reafirmar que o futebol não é um espaço de protagonismo das mulheres. Por esta razão, e várias outras, considero fundamental a criação de um departamento de futebol feminino em todas as instituições que regem o futebol e, preferencialmente, com uma mulher conhecedora da modalidade na direção.  

Nesses campos de disputas e pensando em uma questão linguística você tem falado bastante, no sentido de demarcar, o futebol de mulheres e não o futebol feminino. Por que você tem defendido essa forma de se pensar? E o que ela representa para todo o campo desse futebol?

Eu acho que isso é importante. A Claudia Kessler começou a trabalhar dentro dessa lógica na sua tese de doutorado. Quando a gente se apropria desse termo já incorpora também outros significados. Um deles é que o feminino não se restringe às mulheres. O feminino pode estar marcado no corpo de homens e de mulheres, pensando aqui nas múltiplas formas de feminilidades e de masculinidades. Um outro significado que eu agrego a esta expressão é a reafirmação de que o futebol é também das mulheres. É posição política. É para demarcar que são mulheres e que precisam ter a sua voz reconhecida. Se eu falo futebol de mulheres ou futebol praticado por mulheres ou as mulheres do futebol é para visibilizar que as mulheres desde sempre estiveram no futebol. Se elas não aparecem é porque alguém as invisibilizou ou silenciou suas vozes. Há uma anulação simbólica da presença das mulheres no futebol. Isso é muito interessante de ver. Vejamos, por exemplo como a CBF noticiou no seu site a saída da Emily e como anunciou a (re)entrada do Vadão.

A saída da Emily não tem nenhuma imagem, tem apenas a informação da sua demissão. A do Vadão é completamente diferente e exibe uma postura vitoriosa. Percebe? Aqui se vê uma narrativa que invisibiliza e anula a presença das mulheres. As instituições oficiais fazem isso, a mídia faz isso… se constrói a invisibilidade das mulheres e muitas vezes ela é tão naturalizada que sequer é percebida. Por essa razão entendo que falar futebol de mulheres é muito importante porque destaca a palavra mulher! Mostrar que são elas. Evidenciar seu protagonismo. Afinal, nada foi concedido para as mulheres no universo do futebol, tudo foi conquistado. Essa é uma frase importante. Se temos o que temos hoje no futebol de mulheres não foi concessão. Resulta da luta delas, luta que muitas vezes é silenciosa, é sutil, é sofrida, mas ela é persistente. O futebol de mulheres no Brasil existe pela resiliência. São essas mulheres que resistem a todas as diversidades possíveis, mas que não desistem. E estão ali, fazem acontecer dentro das suas possibilidades. Isso é importante demarcar. Eu tenho um grande reconhecimento por essas mulheres. As que se posicionam, as que não se posicionam, as que fazem acontecer. Elas não têm a dimensão da importância que elas têm no que hoje podemos identificar como avanços na modalidade. Tenho plena convicção de que se o futebol de mulheres ainda existe, se ele resiste e persiste é por conta delas. Não estou falando somente das jogadoras. Me refiro também as treinadoras, gestoras, árbitras, torcedoras, professoras, pesquisadoras, enfim, mulheres protagonistas no e do futebol. Estas mulheres são feministas sem saber que são feministas. Há muito receio ainda em se entender feminista porque a palavra feminista tem sido historicamente demonizada, é uma palavra que assusta, uma palavra que mais afasta do que agrega. É preciso desconstruir representações pejorativas do que ser feminista. Mulheres e homens feministas lutam por minimizar desigualdades, sobretudo as de gênero. A presença das mulheres no futebol me parece ser um ato de resistência. Um ato feminista de luta pela igualdade, pela existência em um espaço tão adverso.  Assim, podemos pensar que em certos aspectos, elas são feministas sem saberem que são feministas.

Confira a última parte da entrevista no dia 13 de março!