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Silvana Goellner (parte 3)

Equipe Ludopédio

A professora Silvana Goellner estava no radar do Ludopédio há tempos. Depois de alguns desencontros conseguimos realizar a entrevista durante um evento acadêmico no Rio de Janeiro. O evento, é claro, era sobre futebol de mulheres. Isso mesmo: futebol de mulheres e não futebol feminino. Quer entender esse posicionamento da professora Silvana? Fica o convite para ler essa inesquecível entrevista. Aprendemos muito com a Silvana e esperamos que você possa também aprender e muito com o que ouvimos naquela noite carioca. Boa leitura!

Última parte da entrevista com a professora Silvana Goellner. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Como você analisa a contratação da treinadora sueca Pia Sundhage para a seleção brasileira? E quais são os grandes desafios dela diante da estrutura que a CBF possui? 

A Pia é incontestável, uma treinadora com uma trajetória muito bem sucedida. Um nome forte no futebol mundial. A sua contratação me parece estar direcionada para a busca de resultados mais satisfatórios e talvez a curto prazo visando os principais eventos esportivos, sobretudo, os Jogos Olímpicos. No entanto, só mudar a treinadora da seleção não me parece resultar em uma efetiva alteração naquilo que temos apontado como dificuldades para uma efetiva estruturação da modalidade. Afinal, o futebol não é apenas a seleção, esta é uma de suas dimensões no interior da instituição. Os maiores desafios da Pia, no meu entender, recaem na própria estrutura da CBF. Há algumas ações em andamento, mas no meu entender ainda falta uma política a médio e longo prazo direcionada para o efetivo desenvolvimento da modalidade. Volto a insistir na ideia de que a criação de um departamento de futebol feminino gerido por uma mulher com experiência na modalidade, é medida não só necessário, mas urgente.

Nesse sentido que teria esse papel do futebol na comunidade?

O futebol que acontece nas comunidades é feminista ao extremo porque ele empodera pessoas e grupos, contribui na geração de renda, por menor que seja essa renda. No entorno do futebol há atividades: tem aquela pessoa que vende o churrasquinho, aquela que faz a camiseta, tem um futebol de comunidades que congrega mulheres e não só as mulheres, os familiares, os homens  que vão para assistir  os jogos das mulheres, os filhos que estão ao redor do campo, etc.  Há uma certa coletividade e, por vezes, a gente não presta atenção do quanto ela é empoderada. O futebol é um espaço de sociabilidade de muitas dessas mulheres porque o que acontece ali é muito importante. Elas conversam, trocam ideias sobre as suas vidas, trocam experiências e se sentem pessoas capazes de fazer algo. Isso é muito positivo e, neste sentido, o futebol tem um potencial revolucionário sobretudo para grupos de mulheres desprovidas de privilégios, sejam eles de ordem econômica, de raça e etnia, ou outros. Penso ser relevante mencionar essas questões visto que, por conta do racismo que no Brasil é estrutural, o futebol acaba por ser uma possibilidade para mulheres que vivem nas periferias. Muitas vezes ouço que o futebol de mulheres começa a se desenvolver quando começam a surgir as escolinhas de futebol. Eu digo, não! Que futebol está se falando? O futebol apropriado pelas crianças e adolescentes brancos da classe média. Nas periferias o futebol de mulheres existe desde a década de 1920. Mas para a história oficial, parece que isso não conta. Esta presença é tão relegada que nem se considera sendo possível e muito menos se considera essa como uma manifestação de um futebol existente e potente. Eu não falo nem em invisibilidade midiática, estou falando em reconhecer esta prática um espaço de empoderamento de mulheres.

Como surgiram os seminários da Rede Internacional de Pesquisa sobre Futebol e Mulheres  que você tem organizado juntamente coma Verónica Moreira e o David Wood? Como vocês pensam em dialogar com essa comunidade para não ficar em um processo de diálogo somente com a própria universidade. Essa é uma crítica recorrente,  a de  que a universidade fala para ela mesma e o debate não chega aos lugares que deveria chegar. Como é o desafio de estar em outros lugares?

Antes de falar da Rede, gostaria de mencionar outra iniciativa que fiz parte: o Guerreiras Project. Em 2013 teve aquele contato que eu mencionei anteriormente com a Aline Pellegrino e a Caitlin Fischer. Na ocasião elas estavam submetendo um projeto para um edital financiado pela Avon e eu me envolvi com elas sugerindo, inclusive, que registrassem todo o trabalho que estavam desenvolvendo, em especial, as oficinas ofertadas em diversas comunidades. O Guerreiras Project  é um coletivo formado por atletas, artistas, acadêmicas e ativistas que desenvolvem oficinas, pesquisas, performances e exposições visando estimular a justiça de gênero e empoderar mulheres no esporte e fora dele. Eu entrei no coletivo como pesquisadora e professora da universidade e levei junto algumas alunas do meu grupo de pesquisa. Este coletivo tem uma atuação bem forte nas comunidades, não é acadêmico. Promovemos muitas ações com o envolvimento de diferentes grupos, sobretudo quando realizamos oficinas sobre futebol de mulheres priorizando discussões com meninos e meninas, com homens e mulheres. Menciono o projeto para referir o quanto o Guerreiras ampliou minha intervenção para além da universidade. Já o projeto com o David e a Veronica, como ele aparece? Um dia eu recebi um e-mail de um professor chamado David Wood dizendo que conhecia o meu trabalho e queria conversar comigo. Primeiro ele me convidou para ministrar uma palestra em um evento na Inglaterra. Confesso que fiquei com muito medo. Como eu já estava comprometida com um evento que se realizou na Colômbia e era em uma data muito próxima deste na Inglaterra, eu agradeci e me coloquei à disposição para outra oportunidade. Algum tempo depois ele me escreveu novamente informando que viria a São Paulo e que gostaria de me conhecer. Eu disse: “Ok, vou te encontrar em São Paulo!” Neste encontro ele me apresentou o projeto e disse que gostaria de submetê-lo a um edital de financiamento em Sheffield tendo como principal objetivo a criação de uma rede de com pessoas que atuavam neste campo na América Latina. Fiquei entusiasmada com a ideia, sobretudo porque o David não pensava somente no plano acadêmico. Ele queria envolver coletivos, grupos, jogadoras, jornalistas, pessoas que atuavam com o futebol de mulheres fora da academia. De imediato começamos a pensar em ações, trocamos várias ideias e a minha contribuição na construção do projeto, para além da parte acadêmica, foi pensar estratégias de envolver pessoas fora do espaço acadêmico. Isso significava envolver o Guerreiras Project, envolver as jogadoras e ex-jogadoras, as árbitras, as jornalistas, as treinadoras com as quais eu já tinha o contato para, enfim, criarmos essa rede. De imediato David convidou a Verónica Moreira, da Universidade de Buenos Aires, para se agregar ao projeto como outra coordenadora. Formamos assim o nosso trio.  Para tentar agregar pessoas à rede organizamos quatro eventos: em São Paulo, em Buenos Aires, no Rio de Janeiro e em Medelín, na Colômbia. Nestes encontros convidamos pesquisadores e pesquisadoras, mas, fundamentalmente, mulheres que atuam no futebol. Nosso objetivo era reunir pessoas e grupos de diversos países para que se conhecessem e estreitassem laços para pensar ações conjuntas – não somente no plano da pesquisa, mas no plano da intervenção política. Ações de resistência e ações propositivas. Eu não conhecia nem o David nem Verónica pessoalmente. Nos conhecíamos pelas nossas publicações. E aqui agradeço este presente que a vida me deu. Trabalhar com David e Verónica é indescritível. São pessoas muito afetivas, não há disputas nem estrelismos. O que me agrada muito nesta rede é exatamente isto: o grupo que se envolveu conosco é muito afetuoso, não há disputas, são pessoas comprometidas não apenas com o futebol de mulheres, mas com uma sociedade mais justa. O David é uma pessoa excepcional, de uma generosidade incrível. A Verónica também. Ao longo destes dois anos construímos uma amizade forte, sólida e solidária. O financiamento do projeto está acabando e em 2020 apresentaremos alguns produtos:   um manifesto em favor do desenvolvimento do futebol de mulheres e um e-book contendo registros dos quatro eventos realizados. Estas publicações serão em português, inglês e espanhol. Findo o financiamento, continuaremos de algum modo porque os laços criados não se perdem. Continuaremos a ocupar alguns espaços e falar aquilo que acreditamos ser necessário de ser dito. A rede é esse movimento. Não sei onde vai dar, mas o caminho se faz ao caminhar. Não tem outro jeito.

Fala um pouco do Centro de Memória do Esporte (CEME) nesse processo todo.

Estou na coordenação do CEME desde 2000. É muito tempo! Quando comecei a me envolver com o futebol de mulheres pensei na possibilidade de criar uma coleção específica sobre este tema no acervo do  Centro de Memória que até então reunia oito coleções específicas: Educação Física e Esportes, Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte, Jogos Mundiais Universitários, Escola de Educação Física, Dança, Lazer, Movimento de Estudantes de Educação Física e Projetos Sociais. Criar a coleção Futebol Feminino era ato político dada a invisibilidade de acervos, histórias e memórias de pessoas, grupos e instituições. Nomeamos de Futebol Feminino e para evitar confusão. Poderia ser Futebol e Mulheres ou Futebol de Mulheres ou Mulheres e Futebol, sei lá. Quando criamos esta coleção não havia acervo sobre este tema no Centro de Memória. A gente começou a produzir os acervos e esta ação está registrada no documento que registra a política de acervos do Centro de memória do Esporte. O CEME não é institucionalizado, ele é um Projeto de Extensão, por este motivo, considero fundamental que exista um documento que registre a política de incorporação e descarte de acervos. Com relação ao futebol de mulheres, o que a gente tem feito? Realizamos mais de 120 entrevistas com mulheres, destas temos mais de 80 que já estão disponíveis no site do CEME e no Repositório Digital da UFRGS. Criamos estratégias para a digitalização de acervos de jogadoras, treinadoras, etc. O processo envolve digitalizar, organizar e devolver os materiais para elas. Esse processo é bem importante por preservar uma memória que ainda não foi acessada em termos de pesquisa. O Centro de Memória tem feito isso e meu grupo se dedicou muito a contribuir com esta atividade. Não temos financiamento para isto e tudo o que fizemos é ato voluntário. Considero extremamente relevante mencionar a confiança que muitas jogadoras depositaram em nós e no nosso trabalho, de moda a emprestar algo que é muito importante para elas. documentos, fotografias, vídeos, objetos, uniformes que narram suas trajetórias. Penso que esta iniciativa cumpre um papel político que é, sobretudo das Universidades Federais: a preservação, a catalogação, o cuidado e a divulgação. Porque não adianta preservar se não divulgar. A divulgação, do meu ponto de vista, não pode ser e não é só com as pesquisas. E quando eu falo só não é dizer que as pesquisas são menores. Elas são fundamentais. Mas a gente precisa atingir outros públicos, outras possibilidades de divulgação. Então, as exposições representam essa possibilidade. As oficinas, os eventos, as ações de extensão. A criação da coleção Futebol Feminino é, no meu entender, de grande relevância. Inserir estes acervos no LUME – Repositório Digital da UFRGS foi uma conquista muito grande tanto do Centro de Memória do Esporte, quanto do futebol de mulheres. Hoje há acervo para pesquisas e me orgulho muito de participar desta produção. Conseguir disponibilizar estes materiais e disponibilizá-los para consulta online é ato político. E me orgulho muito que seja em uma universidade pública. A pessoa entra no site e baixa em seu computador o que quiser, sem custo algum. É o movimento de acesso livre à informação. Isto é político. Se a gente pegar em uma outra lógica poderia empresariar o material, isto é, digitalizar e vender. Considero importantíssima ainda a possibilidade que acabamos do fornecer para que muitas mulheres vejam suas histórias registradas, se reconheçam nelas e se percebam como protagonistas da história do esporte brasileiro.  

Nós olhamos a questão das entrevistas no sentido de preservar, de registrar, de divulgar mas elas cumprem um papel que pouco falamos: a pessoa entrevista nos dá respostas que você enquanto pesquisador/a não havia pensado. Isso aconteceu com vocês?

Muito! A gente vai para fazer uma entrevista achando que está sabendo tudo, dominando o campo. Afinal, estudamos isso. Daí a entrevistada te diz meia palavra que te abre um universo maravilhoso. Isso é o que eu digo: o futebol que, para mim, era um universo desconhecido até pouco tempo atrás, hoje me ampliou o horizonte de percepção do mundo e não só da modalidade. A partir de meu encontro com estas mulheres comecei a perceber muitas coisas que não percebia, observar outros elementos, enfim, sou muito feliz por estar mergulhada neste universo. A minha aposentadoria que acontecerá em breve será apenas de algumas funções junto a Universidade. Continuarei imersa no futebol de mulheres. Não tenho como deixar, fui capturada e quero fazer ainda muitas coisas porque tenho muita vontade de estar junto com elas, de aprender muito. Porque efetivamente é isso, eu aprendo muito com essas pessoas que fazem o futebol acontecer. Essas mulheres me ensinam muito e são uma inspiração para a vida.

Qual é a sua partida inesquecível?

A partida inesquecível foi a final do Campeonato Gaúcho de 2018, Grenal. No estádio do Beira-Rio, um dos primeiros de mulheres a acontecer no Beira-Rio. O Internacional, meu time, ganhou nos pênaltis do seu grande adversário. O Grêmio tinha vencido a primeira partida, chegou com a vantagem, e no Inter conquistou o título dentro de casa. Foi muita emoção, uma partida inesquecível.

O que é o futebol para você? Uma pergunta bem simples para finalizar…

Essa não é simples não!!! Risos. O que é o futebol para mim? Acho que o futebol foi um bálsamo, um alento. Eu estou falando do futebol de mulheres. Registre-se! O futebol para mim é o futebol de mulheres. E é um bálsamo na minha vida acadêmica. É algo que me deu muito conhecimento e muito afeto. É algo inexplicável o afeto com o qual eu sou recebida e com o qual convivo junto destas mulheres do futebol. Então, o futebol para mim é mulheres. É as mulheres do futebol!