21.53

Silvana Goellner

Equipe Ludopédio

A professora Silvana Goellner estava no radar do Ludopédio há tempos. Depois de alguns desencontros conseguimos realizar a entrevista durante um evento acadêmico no Rio de Janeiro. O evento, é claro, era sobre futebol de mulheres. Isso mesmo: futebol de mulheres e não futebol feminino. Quer entender esse posicionamento da professora Silvana? Fica o convite para ler essa inesquecível entrevista. Aprendemos muito com a Silvana e esperamos que você possa também aprender e muito com o que ouvimos naquela noite carioca. Boa leitura!

Silvana Goellner. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Como o futebol surgiu para você? Quais são as suas primeiras lembranças?

Eu tenho poucas lembranças de futebol. Não tive, digamos assim, uma trajetória com o futebol. Eu sou do interior do Rio Grande do Sul, de uma cidade chamada Carazinho e meu avô jogava futebol em um time que se chamava Clube Atlético Carazinho. Eu não lembro de ter ido ao campo de futebol, tenho a lembrança de que ele jogava quando jovem. Tinha algumas fotografias que registravam essa presença. Eu perdi meu pai muito jovem, com cinco anos e durante a infância não percebia em minha casa, a presença do futebol de campo. Não fazia parte de meu universo. Na adolescência assisti muitos jogos de futebol de salão. Em Carazinho havia um time, o Sercesa, que disputava campeonatos locais e estaduais. Isso envolvia a cidade, era um acontecimento que reunia muita gente. Minha mãe, meus dois irmãos e eu fazíamos parte da imensa torcida do time e sempre que possível íamos aos jogos com outras amigas e amigos. Fora o futebol, eu sempre fui muito ligada ao esporte. Desde a infância. Eu nadava e jogava vôlei. Lá em Carazinho tinha um clube, o Grêmio Aquático, e as férias eram inteiras naquele clube. Junto com meus irmãos íamos pela manhã e voltávamos para casa no entardecer. Lá fazíamos de tudo: ping-pong, voleibol, natação e às vezes jogava futebol. O futebol era muito mais uma brincadeira depois do jogo de voleibol, que reunia homens e mulheres. Mais tarde, na faculdade, o futebol era uma modalidade dos homens e, portanto, não tive uma disciplina específica. Eventualmente, mais para o final do curso, lembro de algumas participações curriculares no futebol no qual as mulheres jogavam. Minha posição era de zagueira. Portanto, não me percebo como uma pessoa que veio do futebol. Ele aparece para mim como pesquisadora. Por, digamos assim, uma tradição familiar eu torço pelo Internacional, mas não sou aquela pessoa que acompanha o time ou que vai ao estádio. Eu vou ver os jogos das mulheres, não perco um. Mas dos homens fui em apenas um ou dois jogos, não tenho muito vínculo. Aliás, eu fui aos jogos dos homens depois que eu comecei a me envolver com o futebol de mulheres. Eu não tinha o futebol como algo presente em meu cotidiano. Entendo muito pouco de futebol e o futebol dos homens não me desperta interesse nem curiosidade.

Como você analisa essa experiência do primeiro contato ser mais efetivo com as mulheres e depois com os homens? Especialmente dos discursos que apontam haver um abismo entre o futebol de homens e de mulheres?

Como eu já tenho um olhar contaminado pelo futebol de mulheres e observo tudo a partir dessa lógica, tento desconstruir a representação de que o futebol deles é mais atrativo, mais importante, mais rápido… Eu não olho isso! Primeiro porque não tem como fazer uma comparação. Procuro não fazer e ao tentar valorizar o futebol de mulheres, eu tento desconstruir essa representação. Senão a gente cai naquela cilada de que o futebol de mulheres sempre vai ser menor, menos importante e obsoleto. Eu não posso querer comparar um público nos jogos disputados por homens e por mulheres. São muito diversos, tem histórias muito diferentes. Na final do Campeonato Gaúcho de Futebol Feminino tinha 5 mil pessoas no campo. Um número significativo para o futebol de mulheres que há apenas dois anos voltou a acontecer no Estado. E esse acontecimento nem foi noticiado na mídia. Por isso eu evito essa comparação por serem realidades absolutamente distintas. O futebol de homens, este espetacularizado, é uma exceção e nada se compara a isso. Comparar é dar força a representação da subvalorizarão do futebol delas.  Se construiu essa representação não por uma questão biológica, mas por uma questão cultural. A representação do futebol delas como menos importante, menos veloz, menos técnico é produto da história da modalidade. Eu não posso querer que hoje as mulheres tenham o mesmo desempenho que os homens se elas começam a treinar cinco meses antes de um campeonato. Ou se elas não têm onde jogar. Hoje estamos vendo esse cenário com a ampliação do número de times. Há muitas jogadoras que estão começando a jogar agora em uma equipe um pouco mais estruturada. No time do Internacional, por exemplo, há jogadoras muito jovens atuando com jogadoras muito experientes. É só ver a seleção que encontramos esta mesma situação e isto acontece porque não o futebol ainda não é visto como uma possível profissão para as jogadoras. Não há uma política de formação de base. Essa desigualdade me interessa entender. Por isso eu não me interesso pelo futebol dos homens. Eu não assisto, não conheço, eu não tenho vontade de ver. Exatamente porque para mim não é importante. Para mim, acompanhar o futebol de mulheres é uma questão política. É onde eu deposito a minha vontade de conhecer futebol:  conhecer o futebol de mulheres e as mulheres do futebol. Isso me interessa, me move. Aqui reside meu envolvimento emocional, afetivo e político.

Pensando na sua trajetória dentro da Universidade na qualidade de professora titular, como você analisa o seu caminho enquanto pesquisadora/professora? Quais foram os seus desafios encontrados? Sendo mulher, pesquisadora, muitas vezes se deparando em lugares que os homens controlam…

Digamos que tudo começou como uma questão política que vem sendo trilhada há muito tempo e se relaciona com a presença das mulheres no esporte. Claro que não foi uma decisão do tipo: agora eu vou fazer isso! Ao longo de minha história pessoal fui me constituindo como mulher, como estudante de Educação Física, como professora que olhava para as questões vinculadas às mulheres no esporte. Minha formação está muito vinculada a aspectos relacionados com a história da Educação Física e quando eu comecei a pesquisar essa história eu não encontrava as mulheres. Isso quando eu ainda estava fazendo a graduação em Educação Física na década de  1980. Esta ausência foi gerando uma certa vontade de conhecer histórias de mulheres, de saber o que tinha acontecido para que não fossem registradas estas histórias. Eu sabia que elas existiam e me intrigava não as encontrar nos livros, jornais… Digamos então que minha trajetória como pesquisadora tenha sido direcionada por essa ausência assim como por alguns temas a ela vinculados com destaque para a invisibilidade. A partir dessa percepção eu construí minha trajetória acadêmica discutindo duas grandes vertentes: uma relacionada à história do esporte e da Educação Física e outra fortemente ancorada nas questões de gênero. Estas vertentes em determinados momentos se atravessam e em certos momentos se afastam. Desenvolvi um trabalho no Centro de Memória do Esporte (UFRGS), o qual tive a honra de coordenar por mais de vinte anos, com ênfase na historiografia da área, que não necessariamente esteve relacionado às discussões de gênero. Me preocupei com a produção, guarda e divulgação de acervos e fontes não apenas relacionadas as mulheres, mas as práticas corporais e esportivas de distintos indivíduos, grupos e instituições. Por outro lado, grande parte de minha trajetória está fortemente vinculada com a análise das questões de gênero e sexualidade no esporte. É no entrelaçamento dessas duas vertentes que surgiu o futebol como tema de pesquisa e militância. Antes de eu focar esse tema, eu tinha escrito um ou outro texto sobre mulheres no futebol. Mas teve um evento que foi determinante para que eu direcionasse meu olhar para o futebol. Eu fazia algumas assessorias para os projetos sociais do Ministério do Esporte no Governo Lula para discutir as questões de gênero e, em 2013, aconteceu evento no Rio de Janeiro sobre empoderamento de meninas e mulheres pelo esporte. Era um evento organizado em conjunto com a Embaixada Americana, voltada para jovens brasileiras e norte-americanas. O Ministério do Esporte não fazia essa discussão e me convidou para representá-lo com uma fala sobre este tema. Tive a honra de partilhar uma atividade com a  Aline Pellegrino, ex-capitã da seleção brasileira, e a Caitlin Fisher, uma norte-americana que veio jogar no Santos e que havia fundado junto com a Aline o Guerreiras Project, um projeto que reúne jogadoras, ex-jogadoras e ativistas que tomam o futebol como uma ferramenta de empoderamento de mulheres. Quando elas começaram a falar, antes que eu, percebi que estávamos pensando e dizendo as mesmas coisas. A gente teve uma sintonia absurda! Tanto que quando a gente terminou a atividade eu, muito tímida diante da capitã da seleção brasileira, me apresentei novamente e começamos ali relação de proximidade que se transformou em uma parceria de militância e de amizade.  Quando eu voltei para Porto Alegre eu disse: “Caramba! É o futebol!” E desde 2013 tem sido o futebol. Este encontro abriu um leque de possibilidades de pensar e estar no futebol. Um leque muito mais amplo que apenas relacionado à grande invisibilidade que as mulheres do futebol têm na historiografia brasileira, na historiografia do esporte e no próprio futebol contemporâneo. Como mulher e pesquisadora eu pensei: “Agora eu quero olhar para isso”. E as coisas começaram a acontecer e desde então tem sido uma profusão de iniciativas, investimentos e atuações no e com as mulheres do futebol. Passei também a fazer parte do Guerreiras Project. Em termos de entrar em espaços que são dos homens, como você perguntou, posso te afirmar que a pesquisa também é um espaço de luta e de conquista para as mulheres, inclusive nas universidades. É também um espaço demarcado pela questão de gênero. Basta ver a lista de pesquisadores e de pesquisadoras do CNPq. Há ali muita diferença. No meu caso específico, as temáticas que eu acabei estudando, apesar de eu considerar que não teria grande chance nos editais de fomento à pesquisa, acabei sendo bem sucedida nos pedidos. Relaciono isso mais à minha produção do que propriamente os temas investigados os quais, não raras vezes, são considerados menores dentro de uma lógica de avaliação que tem privilegiado temáticas afetas as ciências biológicas e não as humanidades.   Eu demarquei meus projetos com temáticas relacionadas à gênero, corpo e sexualidade, às mulheres no esporte e ultimamente ao futebol de mulheres. Quero registrar que em alguns momentos ouvi, em tom de “brincadeira”, comentários de colegas acerca destas temáticas, muitos deles revelando perspectivas sexistas, misóginas e homofóbicas.  Algumas vezes discuti, outras deixei passar porque não valia a pena o desgaste. Se na academia por vezes ainda é “estranho” uma mulher dedicar-se ao futebol, imagina nas instituições que regem o esporte. Quero aqui comentar uma outra experiência, desta vez em um ambiente muito machista e de domínio absoluto dos homens. O futebol tem me levado para espaços impensáveis. Eu nunca imaginei, por exemplo, que um dia eu participaria de uma reunião na CBF, com o presidente da entidade, na época Marco Polo Del Nero. O futebol de mulheres é tão carente de atenção que quem adentra este espaço acaba por ganhar rápida notoriedade. Eu acho que não sou uma grande pesquisadora de futebol, tenho absoluta convicção que ainda conheço pouco sobre a modalidade, dada sua longa e diversa história. Mas eu percebo a dimensão que o meu trabalho – que é muito pequeno – adquiriu em vários meios, não somente no meio acadêmico, mas sobretudo no meio das jogadoras e do próprio futebol. Esta rápida aceitação me faz ver o quão abandonadas são jogadoras, árbitras, gestoras, enfim, as mulheres que atuam na modalidade. Nestes anos de dedicação acabei por me tornar uma referência para mulheres de várias gerações, desde a primeira até a última. Muitas das que me aproximei sabem que estou ali sem nenhuma outra intenção que não seja visibilizar o que elas são. E realmente é isso. Eu não tenho outra perspectiva. Se eu pensar em termos de carreira, não tenho mais para onde ir. Já sou professora titular, sou pesquisadora do CNPq e estou me aposentando. Eu falo: “Estou me aposentando para dedicar mais tempo para vocês”. Eu não vou mais orientar na pós-graduação, por exemplo. Acho que fechei um ciclo na minha vida. Agora quero me dedicar a fazer coisas com as jogadoras.  Tenho a perspectiva de escrever biografias com elas, de digitalizar seus materiais e poder compartilhar. Tentando voltar à pergunta: o futebol é tão importante no Brasil, tem uma representatividade tão grande que um trabalho pequeno com o futebol com mulheres, como o meu, adquire uma relevância muito maior do que eu acho que ele efetivamente é. Em 2019, acredito que eu dei mais de 40 entrevistas em função por conta da realização da Copa do Mundo na França e da visibilidade adquirida pela modalidade. Foram entrevistas para trabalhos acadêmicos, para jornais, sites, uma participação no Globo Repórter… Acredito que muito do que aconteceu foi por conta da confiança que as jogadoras depositam naquilo que venho fazendo. Elas sabem que não estou ali para roubar as histórias ou para vende-las. E isto não é retórica. A grande preocupação que eu percebi no início era isso: “Vocês vão se apropriar do que eu tenho para ganhar dinheiro”. Eu sempre respondia: “Eu não vou ganhar dinheiro em nada. Não é essa intenção. E se ganhar dinheiro algum dia isso vai reverter para vocês”. Eu não estou ali senão porque acredito que elas merecem reconhecimento e respeito. Por isso, mesmo aposentando seguirei. Não falando por elas, mas falando com elas!

Como as jogadoras sempre foram esquecidas quando alguém procura causa estranhamento.

Exato. Elas ficavam muito desconfiadas no início. Tipo assim:  “Uma professora do Rio Grande do Sul, o que será que ela quer?” Estou convicta de que o que promoveu uma grande visibilidade para o que eu fiz foi ter sido curadora, junto com a equipe do Museu do Futebol da exposição Visibilidade para o Futebol Feminino, realizada 2015. Ali tem um marco importante para a história do futebol de mulheres no Brasil. O Museu do Futebol abrigou uma exposição tematizando a presença das mulheres e abriu um leque de possibilidades que até então eu não via fora do campo acadêmico. Aquela exposição teve muita visibilidade, muita imprensa principalmente nos primeiros meses e o Museu cumpriu um papel pedagógico bem importante. Para montar a exposição praticamente não havia acervo nem muitas informações e foi por meio do contato com as jogadoras que começamos a traçar o que seria esta exposição.  Eu ficava tentando descobrir o contato delas e quando conseguia me apresentava:   “Eu sou professora… a gente está fazendo uma exposição, gostaríamos de valorizar sua história…. Você teria algum material, gostaria de falar conosco”. De imediato muitas responderam que estavam super honradas, outras ficaram um pouco relutantes e algumas não deram retorno. Mas foi nesse momento que eu abri esse espaço com elas. E como muitas delas, mesmo de diferentes gerações, se conhecem, entrei em uma rede ampla, diversificada, divertida e acolhedora.

E o Marco Polo Del Nero?

Esse é um episódio interessante. Em 2016 a CBF criou o Comitê de Reformas do Futebol Brasileiro e nesse Comitê foi criado um grupo de trabalho sobre o futebol feminino coordenado pela Ana Paula Oliveira, integrante da Escola Nacional de Arbitragem e a Formiga. Um dia estou em casa e recebo um e-mail da Formiga. “For-mi-ga?” Eu quase desmaiei! [risos]. Logo depois recebi uma ligação da Ana Paula Oliveira. Eu quase desmaiei de novo [risos]. O que a Ana Paula de Oliveira quer comigo? Elas entraram em contato para me convidar a constituir esse grupo de trabalho porque sabiam que eu estudava o futebol de mulheres. Eu achei muito legal e aceitei prontamente. Neste grupo tinham várias mulheres ligadas ao futebol como a Emily Lima, a Aline Pellegrino, a Márcia Tafarel, a Lu Castro, a Valesca Araújo (da CBF), a Alessandra Dutra. Contava também com a presença do Marco Aurélio Cunha e do Vadão além de outras pessoas como psicólogos, pessoal de marketing e gestão. Era um grupo grande. Fizemos todo um trabalho nesse Comitê e apresentamos onze recomendações em 2016. Essas recomendações foram aprovadas pela CBF, no entanto, não foram implementadas ainda hoje. Uma delas, e para mim a mais relevante, era a criação do Departamento de Futebol Feminino e até hoje estamos batendo na mesma tecla porque a gente trouxe a discussão sobre a necessidade de ampliar a presença das mulheres nos cargos de gestão. Recomendamos à CBF incluir mulheres em cargos técnicos e diretivos. Em uma das reuniões do Comitê ao falarmos sobre esse tema, especialmente, sobre a questão de mulheres treinadoras inclusive na seleção, lembro que foi feita a seguinte pergunta: Por que vocês querem uma mulher de técnica da seleção? E eu falei: Por que não pode ser uma mulher?

Eles responderam essa pergunta?

Houve algumas manifestações. O Vadão inclusive se manifestou dizendo algo tipo: “Acho que tem mulheres competentes, mas tem que ter experiência na modalidade, as mulheres ainda são muito inexperientes, elas precisam conhecer mais, estar mais junto na seleção”. Ou seja, a lógica do discurso dominante é este: para as mulheres falta experiência. No discurso oficial, não é oportunidade que falta, mas experiência. Eu vou no caminho contrário: o que falta é oportunidade porque experiência muitas têm. Muitas são capacitadas, mas não é oportunizada a possibilidade de estar nos espaços de gestão ou nos espaços técnicos. Aos homens não se cobra capacitação E isto é questão política! Em novembro de 2016 tivemos a demissão do Vadão e a contratação da Emily que foi muito comemorada porque acreditávamos na possibilidade de uma mulher estar no comando da seleção. Não preciso contar toda a história pois já é de conhecimento o que aconteceu com a Emily. Depois de 10 meses no cargo, com 7 vitórias, 5 derrotas e 1 empate Emily foi demitida apesar das jogadoras terem assinado uma carta e encaminhado ao presidente Marco Polo Del Nero, solicitando a permanência daquela comissão que era considerada como muito qualificada. Essa carta não foi acatada e a demissão aconteceu. De imediato houve muitas manifestações nas redes sociais e também por parte de algumas jogadoras que deixaram a seleção. Foi organizado um manifesto que foi publicado em inglês e em português – a carta aberta à CBF – assinado por Sissi, Marcia Taffarel, Juliana Cabral, Rosana Augusto, Formiga, Cristiane, Franciele Alberto e Andrea Rosa. A estratégia escolhida foi lançar a carta na imprensa internacional para ter uma maior repercussão. Esse manifesto começou a circular também na  imprensa nacional e as ligações começaram a chegar na CBF. Com isto a CBF precisava se posicionar e seu Presidente, Marco Polo Del Nero, convocou uma reunião com essas jogadoras. Como tinha proximidade com elas e a grande maioria não estava morando no Brasil, o grupo sugeriu que eu participasse da reunião juntamente com a Juliana Cabral que morava em São Paulo. Diziam: “Sil, você precisa estar nesta reunião”. E para a nossa surpresa ao chegarmos na sede da CBF, no Rio de Janeiro, a reunião não era com o Marco Polo, mas era uma reunião com toda diretoria da CBF. Logo no início  a Juliana se apresentou e tão logo eu comecei a me apresentar, ao mencionar minha participação no Comitê de Reformas, o Presidente interrompeu minha fala com a seguinte questão: “O que aconteceu no Comitê de Reformas? Pontos positivos e pontos negativos”.

Mostrando para você como funciona a entidade, pautada no machismo.

A entidade funciona na pressão. Como nós estávamos muito bem preparadas para a reunião, peguei o material da discussão do Comitê, puxei a papelada e disse: “Olha, a gente fez uma discussão, teve uma boa aceitação…”  E daí comecei a mostrar ponto por ponto o que havíamos recomendado e o que não havia sido implementado. Ele perguntou: “Quais são os pontos que não foram implementados?”. A gente tinha os pontos e como estavam todas as outras diretorias na reunião, a cada ponto ele perguntava algo para o responsável. Por exemplo: “Sobre esta questão do marketing, o que você tem a dizer?”, perguntava para o Diretor. E o Diretor respondia. Juliana e eu tínhamos montado um dossiê elaborado a partir de reuniões anteriores com as jogadoras que assinaram o manifesto e algumas outras mulheres que estavam conosco nesta empreitada. Tínhamos documentos, havíamos planejado abordar pontos problemáticos e também apontar possíveis soluções. E de certo modo assim foi. A reunião durou 2 horas e 30 minutos. Vale dizer que estavam presentes, via Skype, a Formiga que estava na França, a Sissi e a Marcia Tafarel que moravam nos Estados Unidos e a Cristiane de estava jogando na China e a Rosana que estava na Noruega, se não estou equivocada. As jogadoras também começaram a intervir, apontando aspectos a serem melhorados. O que eu acho mais importante dessa reunião é que nós entregamos documentos, uma carta com 14 pontos nos quais apresentávamos o tema e o que a gente achava que tinha que acontecer. Entregamos este material nas mãos do Marco Polo Del Nero e ele decidiu formar o Comitê de Desenvolvimento do Futebol Feminino composto por esse grupo. O trabalho seria de colaboração com a CBF. Beleza, saímos de lá com essa perspectiva do Comitê. Começamos a nos reunir sistematicamente, por Skype. Começamos a elaborar um plano e teve duas reuniões com a CBF representada pela Valesca Araújo. Começamos a trazer propostas, soluções e fizemos muita pressão para a criação do Departamento de Futebol Feminino recomendando, ainda, que fosse coordenado por uma mulher.  Tínhamos nomes para todos os cargos que considerávamos importantes e estávamos projetando um trabalho a médio e longo prazo. Antes de completar três meses, cada uma de nós recebeu em seu e-mail um ofício assinado pelo Marco Polo Del Nero comunicando que estava extinto o trabalho do Comitê. Ponto final! No entanto, deixamos toda a documentação produzida na CBF. Enfim, retomando o que eu estava dizendo:  eu nunca imaginei que estaria em um espaço como esse, sentada do lado do presidente dessa entidade tão poderosa do futebol. Foi uma experiência interessante. Ainda considero que a CBF não tem operado de uma forma efetiva em relação ao futebol de mulheres. Continuo defendendo que a criação do Departamento de Futebol Feminino, esta é a terminologia usada pela CBF, é imprescindível. Assim como é imprescindível que esse departamento tenha mulheres com experiência no futebol nos seus cargos diretivos. Que seja, por exemplo, uma Diretora. Uma mulher que tenha o futebol como parte de sua corrente sanguínea. Isso é determinante. Nomes nós temos, não falta capacitação, nem experiência. Falta vontade política.

Leia a segunda parte no dia 26 de fevereiro!