09.10

Silvio Ricardo da Silva (parte 2)

Equipe Ludopédio

Professor da Universidade Federal de Minas Gerais e do Programa de Pós Graduação em Estudos do Lazer da UFMG, Silvio Ricardo é um dos principais pesquisadores que atualmente se dedicam ao tema das torcidas de futebol e aos estudos interdisciplinares sobre o lazer nas sociedades contemporâneas. Coordenador do Grupo de Estudos sobre Futebol e Torcidas – GEFuT, Silvio organizou recentemente o livro O Futebol Nas Gerais (Ed. UFMG, 2012)

Boa leitura!

 

Silvio Ricardo da Silva. Foto: Sérgio Settani Giglio

 

 

 

Segunda parte

 

Como você vê a rivalidade entre Cruzeiro e Atlético-MG?

Eu orientei uma dissertação ano passado que historicizou um pouco essa rivalidade. É até uma necessidade que eu tinha de entender isso um pouco melhor. O Atlético surgiu em 1908 e era um time de jovens. Em 1912 ele vai ter seu primeiro rival que era o América, tido como um time elite, ainda que seja um conceito relativo e que merece maiores investigações. Quando o Cruzeiro é criado em 1921, ele surge como uma necessidade de afirmação da colônia italiana, assim como o Vasco no Rio de Janeiro também (como afirmação da colônia portuguesa). E durante cinco anos, inclusive, só jogavam no Cruzeiro, atletas provenientes da colônia italiana. E ele surge forte, disputando títulos de 1921 e 1927, ora com o América ora com o Atlético. Até que ele conquista um tricampeonato 1928-29-30. Essa rivalidade se constitui por diversos fatores, levantamos algumas delas a partir da conclusão do trabalho de dissertação do Rogério Othon. Uma: O Palestra Itália surge abusado. Segunda: porque ele representava o diferente, o outro. O italiano até poderia fazer parte de uma elite econômica, mas não da elite cultural de Belo Horizonte. Inclusive, o Palestra (mineiro) teve ajuda do Palestra de São Paulo. Veio técnico de lá, jogadores… quando ele ganha esses três títulos. Bom, a partir disso, as disputas foram acontecendo. Existem historias de brigas homéricas nos anos 1930, e logo depois em 1933, com a questão do profissionalismo, o América inicia uma saída de cena. O América se nega a profissionalizar, até com protesto – vestiu por dez anos uma camisa vermelha.


Em 1942, o Palestra vira Cruzeiro. Mas nos anos 1960, com o advento do Mineirão, o Cruzeiro monta um time muito forte, suplantando o Atlético nesses anos. O Atlético se reforça a partir dos anos 1970, com um time muito bom também. E a rivalidade está posta, assim como em outros lugares. O atleticano não usa azul, o cruzeirense não usa o preto e o branco. Meu sogro é tão cruzeirense que nem frango ele come.

Como ambos clubes, Cruzeiro e Atlético não tem estádio, como fica essa questão entre os clubes? O Cruzeiro se sente mais dono do Mineirão que o Atlético-MG?

Sempre houve uma condescendência do Estado, do poder público, com esses espaços esportivos aqui. Essa é uma tradição. Não é como outros clubes que conhecemos que os associados colocam dinheiro próprio para construir seus estádios. Aqui sempre houve um jeitinho para os clubes terem seus estádios esportivos. Isso com o Minas Tênis Clube, com o Atlético, Cruzeiro, o América inclusive. Agora, isso precisa ser melhor investigado. Quando eu cheguei aqui, antes do Mineirão ser reinaugurado havia divisão interessante, inclusive porque ela perfaz trajetos na cidade. A torcida do Cruzeiro só chega pela avenida Carlos Luz e a torcida do Atlético pela Abraão Caram. Porém, com o Mineirão fechado mais de dois anos e meio, o Atlético se adianta, faz um acordo com o a BWA (Administradora de Estádios de Futebol) para utilizar o estádio Independência, antigo estádio do América. Para o Kalil (presidente do Atlético-MG), ficou inviável financeiramente realizar este acordo com o Mineirão também. E agora ele consegue criar uma mística com o torcedor do Atlético de que no Horto (nome do bairro de Belo Horizonte que apelida o estádio Independência) o Atlético tem bons resultados, etc. Porém, quando o Mineirão é reinaugurado no fim de 2012, inacabado, diga-se de passagem, o Cruzeiro fez o acordo com a empresa Minas Arena (administradora do Mineirão) e coincidentemente ambos clubes (Atlético e Cruzeiro) ficam felizes com seus respectivos consórcios. O curioso também é que após a estreia no Mineirão, quando teve uma série de problemas (falta de água, pessoas passando mal, etc), a torcida do Atlético vai jogar no Independência e o Kalil colocou para os sócio torcedores do Atlético uma garrafinha de água com um papelzinho escrito: “aqui tem água”. Então é reafirmando o que vínhamos falando. Na verdade os estádios não são de nenhum dos dois, são concessões, mas noto hoje o torcedor cruzeirense que se orgulha, inclusive nos jogos eles cantam “Não é mole não, saiu do Horto pra apanhar no Mineirão” e lá eles (atleticanos) dizem “caiu no Horto tá morto”. Hoje, sobre esse aspecto a rivalidade é maior. A torcida do Atlético é convencida a não gostar do Mineirão e a do Cruzeiro do Independência.

Silvio Ricardo da Silva. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Como foi a ação do Gefut perante a passagem da Copa das Confederações por Belo Horizonte?

Sobre a Copa das Confederações, nós não tivemos muito acesso. Alguns pesquisadores puderam ir na condição de observadores torcedores, assistentes. Ai são coisas que observamos, anotamos, registramos, mas sem ser propriamente a pesquisa que estamos fazendo que trata do atual usuário do Mineirão. Mas uma coisa que pude notar era a presença de um público muito diferente que comumente habita o estádio, que possui hábitos diferentes. Isso foi notório. Trouxe para o espetáculo algo que não é comum, é inusitado. Vi coisas no estádio que nunca tinha visto. Pessoas com outros tipos de roupa, algumas muito preocupadas com as lojas ali do estádio, mais preocupados em tirar fotos para colocar no Facebook do que propriamente ver o jogo. O jogo do Uruguai foi muito engraçado. Tinha um sujeito sentado do meu lado que saiu nove vezes para comprar cerveja, e deixou a semifinal de lado. A cerveja foi uma atração muito grande. Então eu vi esse público muito mais preocupado com a questão do consumo do que com o jogo em si. Como obviamente não poderia deixar de falar, das manifestações que aconteceram aqui que foram muito violentas e isso trouxe muito receio para quem estava no estádio, principalmente na hora de sair.

Você acredita que as pessoas estão hoje no estádio mais para ver do que sentir?

Tenho uma posição que vários tipos de torcedores convivem nesse novo modelo de estádio. Ora predominando um, ora predominando outro. Você tem o torcedor que sofre calado, o que vibra muito, o que vai para postar que esteve ali. Com esse novo modelo de estádio, apareceu uma turma que nós, torcedores tradicionais não estávamos acostumados. Na Copa das Confederações a predominância foi do torcedor que vai para ver e consumir, todavia, no que tange a Minas Gerais, mais especificamente no Campeonato Mineiro e agora o Campeonato Brasileiro vemos a predominância do torcedor tradicional que busca acompanhar o clube nesse tipo de jogos. Porém, isso também não exclui esse torcedor consumidor que passa o jogo tirando fotos e postando. Uma coisa é clara, mas que precisamos aprofundar com os dados coletados, mas tudo leva a crer que um determinado perfil de torcedor foi afastado do estádio ou ele só vai ao estádio de vez em quando, ele escolhe quando pode ir, pois não tem condição financeira para ir sempre. Você tem um grupo que tem uma condição socioeconômica melhor que tem se agregado ao clube, como o caso do sócio torcedor do Cruzeiro, entendendo que essa é uma maneira mais econômica e confortável dele frequentar esse estádio. Aí, nós pudemos notar que existe uma satisfação com a reforma no que se refere à beleza, estética do estádio, os banheiros, a segurança, mas existe um descontentamento em relação aos preços. Também existe uma posição muito dividida no que se refere à presença dos ambulantes no entorno do estádio. Outra coisa que pudemos notar é que as pessoas estão criando práticas e reinventando praticas em função das imposições dessa reforma, como por exemplo, nos jogos do Cruzeiro, as pessoas chegam mais cedo e fazem um churrasquinho nas proximidades do Mineirão, levando churrasqueira, isopores, etc. Ouvem música, ouvem o hino, encontram amigos, e são grupos absolutamente separados. Construiu-se desde muito tempo uma cultura em Belo Horizonte das pessoas chegarem cedo no Mineirão que fica na região da Pampulha que é mais afastada do centro da cidade, principalmente as pessoas mais pobres que vinham e passavam o dia por aqui – iam na feirinha do Mineirão, no Parque da Guanabara, consumiam as comidas das barraquinhas e no fim, assistiam ao jogo e iam embora pra casa. Esse era o pacote dominical que se acabou. Mas me parece que as pessoas estão se reinventando agora.

Silvio Ricardo da Silva. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Como vocês avaliam as restrições impostas pela FIFA ao uso do espaço?

Durante a Copa deve ser cumprido isso, até pelo isolamento do espaço, apesar de alguns estabelecimentos abriram vendendo cerveja lá fora. Aliás, novos estabelecimentos abriram para atender esse publico de fora, com a cerveja mais barata (dentro custava R$ 9, fora R$ 5). Sinceramente, eu creio que algumas coisas se modificarão, mas nem tudo. Arrisco a dizer que a maioria não. Você (entrevistador) esteve lá. As pessoas assistiram ao jogo em pé, era um jogo tenso (Cruzeiro x Botafogo), primeiro e segundo colocado do campeonato brasileiro. Então, eu gostei daquilo que o Arlei Damo falou: são gramáticas diversas, não podemos generalizar tudo, existiram diferenças de comportamento que tem a ver com o campeonato, com o jogo, o que ele envolve e isso difere muito.

Como organizador do primeiro simpósio de futebol, qual sua avaliação do evento que foi realizado em setembro de 2013?

Muito positivo. Desde participei do surgimento do Gefut, eu tenho a preocupação que é dar a Minas Gerais o protagonismo que merece ao que se refere à paixão pelo futebol. E eu sempre vi essa discussão centrada no eixo Rio-SP, um pouco no Rio Grande do Sul e no Paraná. E me chamou a atenção naquele Simpósio no Museu do Futebol em 2010, as pessoas não sabiam que em Minas Gerais se discutia futebol e que a Educação Física discutia futebol. E eu busco cumprir esse papel. Mostrar que aqui temos a preocupação social e acadêmica com o futebol e nesse evento pudemos trazer gente de diversos lugares: México, Argentina, Inglaterra, de outros estados. As mesas e as discussões foram espetaculares, os palestrantes muito felizes, uma programação muito qualificada. A minha satisfação com o evento foi enorme.