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Victor Andrade de Melo (parte 3)

Equipe Ludopédio

Professor em Educação e em História Comparada/Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, e também professor em Estudos do Lazer da Universidade Federal de Minas Gerais, Victor Melo tem se dedicados aos estudos do esporte e das práticas corporais em diferentes áreas: História, Educação Física, Lazer, Educação. Autor de uma vasta produção bibliográfica, com diversos livros e artigos dedicados à temática esportiva, atualmente é coordenador do Sport: Laboratório de História do Esporte e do Lazer e membro do Laboratório de Estudos da Educação do Corpo (Labec/UFRJ).

Foto: Sérgio Giglio

Victor Andrade de Melo. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Terceira parte

Olhando um pouco para sua trajetória na academia, como você avalia o avanço dos estudos sobre esporte no Brasil? Se no início de sua jornada ele era incipiente, hoje ele se expandiu e possibilita até novos temas. Como você enxerga essa mudança do que era, do que tem se transformado e do que pode vir a ser no futuro?

A gente avançou pra caramba. Um dos motivos se deve a algo que é raro no meio acadêmico: brigar pouco entre nós mesmos. Justamente onde se tem mais competição, no esporte, a gente encontra também mais colaboração. Os grupos envolvidos com isso têm pouca tensão entre si. Todo mundo meio que colabora entre si. O que faz com que nossas ações sempre estejam muito somadas. Tem muita gente boa fazendo trabalho em muito lugar. Ao invés dessa gente boa ficar brigando, ela resolveu trabalhar junto, frequentar um o evento do outro, um a iniciativa do outro. A gente, também, aproveitou um momento bom, em que o esporte veio para a pauta. Essa “década esportiva” foi bom para nós. A própria academia começou a perceber que o tema é importante, é sério e tem conexão com outras coisas. Setores da academia que eram refratários ou que desconheciam o esporte se aproximaram. E os grupos que estão há mais tempo, de alguma maneira, souberam aproveitar esse momento e organizaram as suas iniciativas, reflexões… Eu sou muito empolgado com a gente, com essa galera que já há alguns anos está trabalhando junto. Acho isso muito bacana.

Acho, por outro lado, que a gente tem algumas coisas para resolver. A gente avançou muito, ampliou muito, mas precisamos dar saltos de qualidade nesse trabalho. Quer dizer, a gente precisa investigar hipóteses novas, se dedicar a temas novos – alguns deles estão muito repetidos –, lançar olhares para novos objetos. Isso seria um bom caminho. A gente se conhece, se curte, está muito junto, mas dialogamos pouco do ponto de vista de nossas origens teóricas. O pessoal da Antropologia e o da História estão sempre juntos, mas a gente não para meter a mão um no negócio do outro. Tem um enorme respeito entre os dois grupos, mas talvez fosse legal se houvesse mais diálogo entre as áreas. Com o pessoal da Sociologia, é a mesma coisa. Isso seria bacana…

Inegavelmente a gente tem vivido uma década muito legal, coisas que quando estávamos no início nunca imaginamos que poderíamos ter: volume de livros, circulação em revistas, site como o Ludopédio, as coisas que o pessoal do Museu do Futebol organiza com o Ludens, duas revistas como a Esporte e Sociedade e a Recorde… Acho que a gente não imaginava que o negócio poderia crescer tanto assim. Outra coisa é ver o que vai acontecer agora quando a gente entrar nesse luto esportivo. Se esta década foi de euforia, tudo indica que a gente vai entrar num momento de luto. Será que o tema vai, de novo, regredir? Será que vai ser considerado menor pela universidade ou pela sociedade? Para onde a gente vai? Então, temos de estar atentos para ver isso, como vamos proceder, como vamos acolher e tentar ajudar os colegas de outros estados que estão menos estruturados. Volta e meia na ANPUH aparece alguém de Rondônia, do Amapá, que fala: “Eu quero muito estudar, mas não tenho ninguém que me oriente.”. A gente tem que ter uma rede. Agora em Fortaleza tem um grupo de futebol. O grupo de Pernambuco sempre foi forte. Em Belém do Pará, tem um montão de coisas legais surgindo, mas não tem um trabalho estruturado. Então, a gente tem que ver isso, não sei que estratégia vamos ter para dar sequência e não perder… para que esta não seja uma “década perdida”.

Um dos temas recorrentes dos estudos é a identidade nacional. Você acha que a gente precisa avançar quanto à ideia de identidade nacional? Ou fazer um estudo a partir de outra perspectiva? Ou até mesmo superar essa expressão como um tema de pesquisa?

É nesse sentido que eu penso. Identidade nacional, é lógico, é sempre um tema candente. A gente precisa lançar novos olhares para isso… Enfim, nós precisamos diversificar, buscar novas fontes, novos temas e novos problemas. Às vezes, a gente repete tudo: a fonte, o tema e o problema. Por exemplo, violência de torcida. É claro que esses estudos são importantíssimos, mas estamos chegando a um ponto em que está tudo muito igual. Com esporte e modernidade, é a mesma coisa: “esporte e modernidade em Quixeramobim”, “esporte e modernidade em Niterói”… Entendeu? Cada um tem o direito de fazer o trabalho que quiser, é claro. Mas o que o caso de Quixeramobim tem a aportar sobre isso? Pois se você fizer o caso de Quixeramobim um pouco na reflexão do que foi feito sobre esporte e modernidade no Rio de Janeiro… Primeiro, porque não foi. Quixeramobim não é Rio, e Rio não é Paris. Segundo, que a gente tem que se perguntar: “O que esse meu trabalho vai aportar sobre o campo? Que provocação ele tem sobre o campo? Qual é o novo olhar?”. Eu acho que isso é uma coisa que a gente precisa investir daqui pra frente mais detidamente.

Quando começamos, não tínhamos quase nada. Não tinha quase nada e não tinha fonte. Hoje a gente tem a hemeroteca, que é uma “criação divina”. Eu digo que foi Deus quem criou a hemeroteca! Porque quando fiz a tese de doutorado, tinha que ficar procurando, vendo microfilme por microfilme, catando notícias. Hoje, não. No trabalho de inventário que a gente fez no século XIX, temos cerca de 300 mil ocorrências em nossos computadores, em minha casa. Agora a gente está tentando fazer um banco de dados para colocar isso online. Qual a vantagem disso? Você não precisa mais ir à hemeroteca pesquisar. Já está pesquisado e dividido por modalidade (turfe, remo e assim por diante). O que a gente quer fazer é indexar aquilo ali por palavras-chave. Por exemplo: “Esta notícia aqui é sobre anúncio de turfe.”. Assim, o pesquisador que vai trabalhar com isso no século XIX já vai ter as notícias todas ali, não precisará perder tempo na hemeroteca. Desse modo, temos muitos temas novos, e temos que contestar nossas hipóteses centrais. É um pouco do que eu estou tentando fazer com os trabalhos que estou lançando, dizendo assim: “O Cidade Sportiva está todo errado.”. Não é que esteja errado, é que na época era aquilo que dava para fazer. Agora, é lógico, estou mais experiente, tenho um outro conjunto de fontes, e eu vejo que as hipóteses centrais daquele livro estão furadas. A gente precisa reescrever aquele negócio como acontece com a História. Temos que fazer esse esforço, desconstruir aquilo que a gente acha que está consolidado, questionar: “Será que foi mesmo assim? Como podemos lançar novos olhares, novos problemas e novos temas para testar essa hipótese?”. Nem que seja como estratégia de comparação ou alguma coisa assim. Para que a gente dê mais um salto qualitativo nos estudos sobre esportes.

Foto: Sérgio Giglio

Victor Andrade de Melo. Foto: Sérgio Settani Giglio.

Falando um pouco das fontes, como você avalia a potencialidade de suas fontes para olhar para o seu objeto e quais as limitações delas?

Um pouco da marca de minha geração, da geração anterior, era exatamente essa preocupação teórica e metodológica. A gente olhava para os colegas de antes e falava assim: “Esses caras não têm como sustentar isso. Eles estão tirando isso da onde?”. Havia muita especulação – ainda tem alguns caras assim – e pouca comprovação de fontes. Não tem jeito, o trabalho histórico é um trabalho de fontes. Se você não tem fontes para comprovar aquilo, você pode especular, mas fica bem mais frágil. Obviamente, temos de fazer o trabalho de crítica de fonte: ela não é dada, é uma representação, tem que ver a natureza da fonte, para quem ela foi escrita e tudo aquilo. Mas ela é fundamental para o trabalho do historiador. O que avançou é que hoje temos um manancial de evidências de todos os tipos que a gente pode pesquisar. No século XIX, com o qual estou trabalhando, descobrimos muita coisa do Arquivo Nacional, do Arquivo do Rio de Janeiro, muitos documentos, mais a literatura, livros de memória… Quer dizer, a gente pode testar com mais segurança as nossas hipóteses, inclusive desconstruir aquelas que a gente não tinha dados para isso. Não tínhamos olho para ver no microfilme, ficávamos perdidos no meio do trabalho. E o olho eletrônico vê para a gente, vai lá e nos mostra. Por exemplo: na tese de doutorado, eu tinha escrito alguma coisa dizendo: “Teve algum esporte antes de 1849.”. Agora foi possível escrever trinta páginas sobre isso, porque temos a Gazeta do Rio de Janeiro, o Diário do Rio de Janeiro, os livros de memória, mais as obras de viajantes. Então, podemos ter mais ensaios.

É isto: notadamente para o historiador que eu gosto de me conceber, aquele que trabalha com uma determinada escola que valoriza muito a empiria, eu dou muito valor à fonte. Eu acho assim: você pode não conseguir fazer um bom debate teórico, mas se fizer uma boa descrição de suas fontes, então beleza, teu trabalho já é útil, porque ele permite que eu veja que tem coisa para trabalhar. Agora, se você faz uma grande discussão teórica, mas sem fontes, teu trabalho, para a História, não serve para nada. Porque o trabalho do historiador é de alguma forma tentar evidências e comprovações para um conjunto de hipóteses que ele vai formular no diálogo com suas fontes, com os conceitos e com os contextos que vai observar. É esta tríade: contexto, conceito e objeto. E o que sai disso: como era a fonte, como eu trabalho com ela, que conceito que vou utilizar e qual o entendimento do contexto. Sem esse negócio todo bem articulado, o trabalho fica sempre capenga de um dos lados.

Eu acho que a limitação é a da própria natureza de fontes que a gente tem. Por exemplo: eu gostaria de escrever mais sobre as camadas populares do Rio de Janeiro do século XIX. Temos pouquíssimos dados sobre isso. O que tem é aquilo que passou pelos jornais ou documentos de polícia. Então, a gente tem sempre que ler um pouco a contrapelo… Depois que comecei a trabalhar com o pessoal de história antiga e medieval, eu parei de reclamar de falta de fonte. Pô, os caras fazem cada coisa incrível a partir de um vaso. O próprio trabalho do Flavio de Campos com os jogos medievais é incrível. Quer dizer, a gente que trabalha com história contemporânea tem fonte pra cacete. O problema é que isso é trabalhoso. Exige um trabalho meticuloso que muita gente não gosta. E eu sempre me pergunto por que a pessoa vai fazer História se não gosta de fazer isso, uma vez que esse é o trabalho fundamental do historiador.

Adoro o trabalho do João Malaia, porque essa é uma pegada que falta para a gente. Eu queria ter competência de história econômica para aprofundar minhas análises. E o João tem cada insight do cacete a partir de dados numéricos. Ou seja, a fonte está lá, mas o que a gente vai fazer com ela é a grande questão. Através de um preço do ingresso, que para mim que sou historiador da cultura entra como uma curiosidade, um historiador econômico maluco vai lá e destrói: “A regularidade de preço era essa. Tal produto custava aquilo…”. Esse tipo de coisa vai fazer com que a gente aprimore o nosso olhar sobre os nossos objetos. O trabalho do Maurício Drummond com história política acho foda, maneiríssimo. Como é que essas novas percepções podem nos ajudar a melhorar nossa análise? É por aí.

Hoje existe um campo já consolidado de História do Esporte ou ele ainda depende de outras áreas? Poderíamos dizer que a História do Esporte vai constituir um campo específico dentro do mundo acadêmico? Como você analisa isso?

Eu acho que nós temos um patamar de consolidação. Não é só no Brasil, no cenário internacional é muito parecido. Na verdade, lá está pior do que aqui, lá a História do Esporte está perdendo espaço. Porque a gente sempre vai ficar na periferia de nossas áreas mães. Na área de Educação Física, seremos a periferia. Mesmo na área dita sociocultural, a História do Esporte é um pouco periférica. E na área de História, a gente não tem uma disciplina. Por exemplo, eu acompanhei os últimos anos da consolidação de História da África. Abriu-se essa disciplina nas faculdades de História pelo Brasil. Como se abriu História da África, você tem o posto de trabalho para o pesquisador investir. O que acontece, por exemplo, com a galera do nosso grupo. O cara faz uma puta tese de doutorado e depois o cara não tem emprego, porque ele não vai fazer um concurso para História do Esporte. Então, ele tem que fazer um concurso para o que der: História Contemporânea, História Moderna, História da América, algum recorte assim. Ele está parcialmente sem referências na área escolhida.

Sendo assim, eu acho que História do Esporte tem altos e baixos. Na ANPOCS, o tema já esteve mais em voga, agora deu uma certa desanimada. Na ABA, se mantém. Na ANPUH, o tema continua bacana. Nosso simpósio é grande, mas a gente tem a compreensão de que não quer virar um GT, que é mais fíxo, tem uma série de obrigações e tudo mais. Estamos consolidados, mas, do ponto de vista da legitimidade acadêmica, a gente não passa muito disso. Sempre ficamos nessa fronteira, nessa sombra. O que também tem a parte legal, pois por esse mesmo motivo há o cruzamento de outras áreas ali. No entanto, pensando no posto de trabalho, na inserção profissional, na organicidade acadêmica, eu não acho que vamos passar disso… nem na Educação Física, nem na História, nem na Sociologia. Ninguém vai fazer um concurso para sociologia do esporte ou antropologia do esporte.

Confira a última parte da entrevista no dia 28 de abril.